sábado, 16 de dezembro de 2023

A volta do boêmio

 

O velho boêmio voltou. Sentiu que as coisas mudaram quando foi informado de que deveria procurar o Setor de Readmissões. Dirigiu-se ao responsável:

         – Aqui me tens de regresso, e suplicando eu te peço a minha nova inscrição.

         – Preencha esta ficha em três vias. É preciso também pagar uma taxa.

        – Uma taxa?

         – O pessoal aqui era muito instável, vinha e voltava quando queria. A gente tinha que se garantir, por isso criou um fundo de reserva.

        – Mas pra que essa formalidade? Voltei pra rever os amigos que, um dia, eu deixei a chorar de alegria... 

       – Acho você não vai mais encontrar quase nenhum. A maioria hoje dorme cedo e come comida natural. Muitos frequentam nossa academia.

       – Está brincando!? Sabendo que andei distante, vai agora ironizar? Certamente quer me punir por ter deixado a noite. Eu, que fazia serenatas...

       – Serenata? Nos dias de hoje? Você ia cantar para o prédio todo, e terminaria tendo que se explicar à polícia. Se quer paquerar alguém, deixe seu nome aqui no nosso cadastro. Coloque também endereço, profissão, além de preferências gastronômicas, artísticas e culturais. A gente compara com as fichas de outras pessoas e, se for o caso, faz a aproximação via rede social. Basta acrescentar à mensalidade uma pequena taxa.

       – Não preciso disso. Já tenho alguém que floriu meu caminho. Por sinal, estou aqui por causa dela, que aceitou me dividir com vocês. Vendo a tristeza em que eu me encontrava, ela chegou pra mim e disse: “Meu amor, você pode partir; não esqueça o seu violão...”

      – Uma amélia.

      – Amélia não, Otília.

      – Digo que sua mulher é uma amélia, uma tola. Deixar você se divertir com os amigos enquanto fica sozinha em casa. 

      – Mas ela sabe que eu sempre voltarei. Até reconheceu, antes de me deixar partir: “Pois me resta o consolo e a alegria de saber que, depois da boemia, é de mim que você gosta mais”.

       – Depois da boemia?! Mulher nenhuma hoje aceita ficar em segundo plano. Por isso desenvolvemos um setor para receber também as esposas, ou assemelhadas. Trabalhamos nisso de olho na otimização dos serviços. Com o acréscimo de 30% na mensalidade, você pode inscrever Otília. Ela vai conhecer seus amigos e as mulheres deles. Depois que fizemos isso, os casais passaram a brigar menos.

       – Sabe de uma coisa? Vou embora. Pode rasgar a ficha que acabei de lhe entregar. Eu queria tudo como era antes.

     – Mas isso não é problema! Nas sextas à noite, temos uma sessão nostalgia. Os homens vêm sós e podem percorrer antigos becos de ruas estreitas, onde há casas com janelas para fazerem serenatas. Tudo em ambiente virtual, claro, por isso o preço... amarga um pouco. Mas lhe garanto que é compensado pela doçura de voltar aos velhos tempos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

O abismo de Clarice


 A linguagem é a trama que engendra o ser. 

Veio Clarice e puxou um fio, estendendo-o até o limite do silêncio e da agonia. 

Clarice clareia o caos ou o aprofunda, devassando a fenda que há entre o homem e o verbo ? 

É sombra em nosso espírito, ou luz?

Muitos sentidos se camuflam e se desvelam na inquietação com que, juntando palavras, ela mergulha na interminável busca de si mesma.

Fez do abismo seu chão nessa estranha aventura de pensar com o coração.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Amor e perdão

 


Morreu Ryan O’Neal, que fez par romântico  com Ali MacGraw em “Love Story”. O filme estreou em 1970 e foi sucesso mundial entre adolescentes com a história de amor que envolvia os dois protagonistas.

Quando ele foi exibido por aqui, eu estava em começo de carreira e lecionava no 2001. Publicava nesse cursinho um jornal intitulado “O Radar”, onde escrevia crônicas, comentários críticos e umas frases que imitavam o estilo de Millôr. 

O filme tinha um slogan que bem resumia o seu espírito, “Amar é não ter jamais que pedir perdão”, e num dos números do jornal fiz um texto criticando a estupidez dessa sentença. Eu defendia que amar é justamente ser capaz de perdoar e que o embuste do conceito veiculado na frase pressupunha um idealismo que nada tinha de humano. 

Por que fiz isso?! Umas garotas, que tinham chorado muito vendo o filme, vieram para cima de mim com quatro pedras na mão (acho que até mais). Acusavam-me de insensível, incapaz de reconhecer o “verdadeiro amor”. Felizmente escapei ileso do protesto (e talvez de ser demitido).

Passou o tempo; hoje as que me acusavam já devem ter se apaixonado e, quem sabe, vivido o amor verdadeiro. Caso isso tenha ocorrido, certamente se depararam com inúmeras situações em que é preciso perdoar (ou ser perdoado) para manter vivo tal sentimento. E podem concordar, enfim, com quão mentirosa e superficial era a frase.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Compulsões

            


          Vejo uma reportagem na TV sobre compulsão.  A repórter entrevista alguns compulsivos, que falam sem pudor de suas manias. Uma mulher só se sente feliz quando faz compras. Mostra no guarda-roupa uma porção de vestidos, blusas, sapatos que jamais irá usar. 

Um homem expõe sua monumental coleção de CDs, que se empilha por vários cômodos da casa. Ele não dará conta disso nem que passe o resto da vida ouvindo música. E será que gosta mesmo de música? Quem gosta elege seus compositores preferidos e os ouve repetidas vezes, sem esse afã de substituí-los por outros. Gostar é resumir, selecionar. Mas o compulsivo não avalia méritos, qualidades; o que o motiva é a satisfação mecânica de seus impulsos. 

A psicologia cognitivo-comportamental associa os gestos compulsivos a obsessões de que o indivíduo procura se libertar. O pensamento obsessivo aponta para um perigo a que a pessoa fica exposta caso não pratique os rituais de repetição. Neste sentido, comprar sem motivo ou fazer ginástica sem limites seriam pequenas mortificações para afastar uma ameaça ilusória. Ou para apaziguar uma consciência culpada. 

Essa cadeia de mortificações constitui no limite um distúrbio sério, em que os gestos compulsivos ganham uma espécie de autonomia que faz a pessoa esquecer o que está querendo purgar. É como no tique nervoso, ou no cacoete, que são caricaturas de prece. O indivíduo ritualiza, com trejeitos corporais, uma reza sem sentido. Ou uma reza que, pelo menos no início, só tem sentido para ele. 

Quem não tem suas compulsões? Aquele que não as tiver atire a primeira pedra (os escritores têm as frases feitas, que são compulsões linguísticas). Alguns as disfarçam em atividades nobres, como a arte ou a política. Outros as sublimam nos rituais religiosos. Outros por fim as vulgarizam em jogos, vícios, exercícios físicos. 

Minha tese (nada original) é que o excesso de atividade física é uma tentativa de afastar o medo da morte. A consciência de que está exercitando coração e músculos, e com isso combatendo o exército mau de triglicérides e ácidos graxos, dá à pessoa uma ilusão de plenitude. Ou de inexpugnabilidade. Alguns dizem que o que leva a tal excesso é o efeito da endorfina, mas isso não invalida a tese. As preces são uma endorfina da alma, e também se justificam por nossa recusa em morrer.

As compulsões mostram que é tênue o limite entre sanidade e doença mental. Mesmo o indivíduo normal tem, como diria Machado, seu grau de sandice. Curar os compulsivos seria curar o mundo, e quem tentasse fazer isso teria o destino de Simão Bacamarte – aquele personagem machadiano que, ao buscar distinguir os doidos dos sãos, termina sozinho em um hospício.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Máximas saturninas (sobre a melancolia)

 A melancolia é a tristeza pelo que radicalmente nos falta. Cura-se por dispositivos simbólicos (a crença em Deus é uma de suas terapêuticas), e não por remédios. O que se cura por medicamentos é a depressão, que pode inclusive afetar os não melancólicos.    

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Quem descobriu que a Terra é chata não foram os astrônomos. Foram os melancólicos.

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O melancólico tem uma relação paradoxal com o tempo. Lamenta que ele passe, mas precisa dele para sair do estado em que se encontra. Uma das sensações mais comuns nele, por sinal, é a de que o amanhã não chega nunca.

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Dizem que o melancólico não tem fé. Isso não é verdade. Ele pode não ter crença, mas não lhe falta a fé. O corpo lhe assegura a esperança de triunfar sobre o vazio.

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O melancólico pensa lento e profundo. Deixem-no seguir seu ritmo, pois a pressa o exaspera ou mata.

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O otimista acha que o pouco é muito; o pessimista, que o muito é pouco; o melancólico, que “tanto faz”.

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Um pouco de melancolia faz bem; modera a euforia improdutiva. Tem dias em que “se produz” mais ficando na cama.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Dos males de não morrer

 

Li que o bilionário Jeff Bezos tem investido um dinheirão numa startup que pesquisa a imortalidade. Bezos, que já foi ao espaço, parece insatisfeito com a possibilidade de o homem explorar os domínios extraterrestres. Quer mais. Seu sonho é que no futuro possamos escapar de um evento que por excelência confirma a nossa condição animal – o fim da vida.

Há quem se empolgue com essa ideia do criador da Amazon e anteveja um futuro no qual, enfim, nos libertaremos do fardo de nos sabermos mortais. Estou longe de pertencer a esse grupo. Para mim, a morte é o que dá sentido à vida. A perspectiva de que um dia deixaremos de “ser” é que nos mobiliza a construir por aqui algo de valor, aproveitando bem o tempo. Tudo que nasce morre, e o homem não está imune a essa inevitável lei biológica.

Mas deixemos de lado a biologia e nos fixemos nas implicações pragmáticas da proposta do bilionário. O fato de não morrermos inviabilizaria a continuidade dos empreendimentos humanos na Terra. A morte justifica diversas práticas que, sem ela, não teriam razão de ser. Há toda uma indústria, e um vasto comércio, que se alimenta da perspectiva da nossa finitude.

Fico imaginando algumas possibilidades. Por exemplo: se não viéssemos a morrer, os bancos e as seguradoras faliriam (para não falar, claro, das casas mortuárias). Muita gente tem o cuidado de investir parte da sua renda em planos de previdência privada, ou semelhantes, a fim de ao fechar os olhos não deixar ao desamparo a mulher e os filhos. Não haveria, é óbvio, nenhum sentido em uma pessoa fazer isso sabendo que vai viver eternamente.   

Por falar em eternidade, como sem a perspectiva da morte ficaria a crença religiosa? O que a sustenta é justamente o pavor que temos não apenas de morrer mas de, morrendo, ir para um lugar pior do que este. Para evitar isso frequentamos cultos, missas e rituais semelhantes, levando para eles nossa esperança e por vezes nosso dinheiro. Em troca disso nos fortificamos com a ideia de que algo sobreviverá ao corpo perecível. Qual o sentido de tais celebrações caso nos fosse concedida uma imortalidade realmente física, e não a de um incorpóreo espírito a pairar em nebulosas dimensões siderais?

A exclusão da morte afetaria também as relações entre os casais apaixonados. Quantas paixões não se alimentam da promessa, feita pelos amantes, de dar a vida pelo outro? Paixão e morte são aliados históricos, conforme se vê na literatura e na arte em geral. A tragédia de Romeu e Julieta está aí para demonstrar a verdade dessa antiga aliança. Sem a disposição mesmo retórica para o sacrifício supremo, que é o de morrer por amor, as promessas dos amantes perderiam muito da sua credibilidade. Isso terminaria inviabilizando as ligações e por extensão os casamentos, ameaçando a existência da instituição familiar.  

Arrisco-me a dizer que pensar na ausência da morte é pior do que cogitar da sua existência. Para muitos ela é repouso, lenitivo, possibilidade de se livrar de uma vida inútil e sem graça. Se a gente mal nasce começa a morrer, como diz o poeta, é porque o espectro da morte nos acompanha desde o início. Seu papel é nos mostrar que, a despeito das clamorosas diferenças que há neste mundo, o fim será o mesmo para todos.

Só mesmo a avidez e a presunção de um bilionário para querer nos privar dessa igualitária e confortadora evidência.   

terça-feira, 14 de novembro de 2023

As cartas

 

Ela estranhou quando o carro parou em frente à sua casa tão cedo. Não costumava receber clientes naquela hora do dia. O homem que desceu do veículo tinha o semblante assustado e, ao vê-la no alpendre, lhe fez um aceno. Ela foi até o portão; antes de abrir, notou as olheiras de quem parecia não ter dormido.   

– Entre, moço – falou, sem perguntar de que se tratava. Não era preciso. A fama que acumulara fazia com que a procurassem sobretudo por uma razão: desfazer algum temor ligado ao futuro.  

Ela o fez atravessar o pequeno alpendre rumo a uma saleta onde havia uma mesa forrada com um pano verde sobre o qual estava um baralho já gasto. Sentou-se e fitou o rapaz com um ar doce e compreensivo. Aprendera, com o tempo, que essa expressão acalmava os que a vinham procurar.  

– O que o atormenta, meu jovem?

Ele baixou a vista e, com algum esforço, falou as primeiras palavras:  

– Daqui a pouco vou encontrar alguém. Quero saber se corro algum risco.

Disse e ficou mudo. Ela esperou que continuasse. Depois ponderou que, se lhe desse uma ideia de que adivinhava o motivo da sua inquietação, despertaria nele mais confiança.  

– O que é que no comportamento dele lhe provocou tanto medo?

“Dele”. Então ela sabia que se tratava de um homem! E, de fato, era o marido da colega de trabalho com quem vinha saindo há alguns meses.

– Como sabe que é “ele” e não “ela”?

– “Ela” ocupa sua mente, mas de outro modo – respondeu com um olhar malicioso, dando à expressão um ar conivente que o confortou.   

A senhora é perspicaz – ele disse, com um suspiro que fez os olhos dela brilharem ainda mais.  

Explicou-lhe então que vinha se encontrando com uma mulher casada. Os encontros ocorriam com a máxima discrição, claro. Chegara a ponderar que o que fazia não estava certo, mas se sentia incapaz de resistir. Desejava-a, tinha paixão por ela, e sabia que era correspondido.

Fez uma pausa, levemente emocionado com o que acabara de dizer. Em seguida explicou que mal conhecia o marido, por isso estranhou o telefonema pedindo-lhe um encontro para falar “da situação profissional da esposa”. Ficou com a mosca na orelha. E se ele soubesse de tudo e pretendesse lhe fazer algum mal?

Depois de ouvi-lo, a mulher pegou o baralho e começou a misturar as cartas.  

– Vamos ver o que elas dizem. As cartas não mentem jamais.

Esse lugar-comum lhe soou como uma verdade profunda. As cartas pareceram infalíveis e certamente o orientariam sobre o que deveria fazer. A mulher pediu que tirasse uma delas, depois outra, juntou as duas e olhou por cerca de meio minuto a combinação. Depois levantou a vista e o fitou com um sorriso entre cúmplice e triunfante.

– Tranquilize-se, meu filho. Ele não sabe de nada.

– Tem certeza de que ignora o que há entre nós?

– Absoluta. Siga em paz e viva com intensidade essa paixão, pois a vida é curta.  

Sorriu, aliviado, e lhe perguntou quanto devia.

– Dê o que o seu coração mandar.

Abriu a carteira e lhe passou uma quantia generosa. O alívio que as palavras dela lhe trouxeram não tinha preço. Ao se despedir, apertou a mão da mulher e agradeceu com uma humildade que a surpreendeu. Ela é que devia se mostrar humilde diante daquele homem elegante e de uma classe social bem superior à sua. Mas o que dá a cada um a medida da sua importância é a situação que está vivendo, e ele se sentia frágil em razão da dúvida que o afligia.    

Depois que saiu, ela contou as notas. Era um montante considerável, que lhe permitiria consertar o ar-condicionado e comprar uns objetos com que vinha sonhando.

Depois do jantar, sentou-se diante da TV para assistir ao noticiário local. Ficou curiosa ao se deparar com a primeira manchete: um marido que se soubera enganado matou com três tiros o amante da esposa. Em seguida vinham detalhes do crime e a foto da vítima. Tomou um susto ao ver que era o homem que tinha vindo consultá-la pela manhã. A mesma roupa, o mesmo cabelo, e nos olhos vidrados um ar de perplexidade.

Por um instante sentiu remorso, mas logo tratou de banir do espírito esse sentimento. Qual fora a sua culpa? Não tinha concorrido para o crime. Deixara o rapaz confortado como podia ter feito o oposto. Se confirmasse as suspeitas dele e estivesse errada, poderia pôr fim à vivência de uma grande paixão.  

Pensando bem, foi melhor que ele ignorasse o que estava por acontecer e marchasse tranquilo para o fatídico encontro. A sentença já fora providenciada pelo destino, e quem era ela para interferir nos seus desígnios? O que fez, no final das contas, foi dar um pouco de ilusão a quem já se condenara pelos seus próprios atos.

Com esse pensamento recontou o que o morto tinha lhe dado, antecipando os pequenos luxos que iria comprar.


Visita de aniversário