sexta-feira, 21 de junho de 2024

O noivado e o poema


 

Eu preferia não receber originais de poesia ou ficção. Quando o rapaz ou a moça nos entregam o texto, como que jogam em nós a responsabilidade pelos seus sonhos, seus destinos, e até pelo significado de suas dores. Pensam que deve haver um nexo entre sofrimento e aptidão artística; que a arte deve necessariamente compensar uma existência aborrecida ou mesmo infeliz.

Me lembro de uma ocasião em que eu estava no meu ambiente e ouvi batidas na porta. Era uma aluna. Trazia um pacote de papel-madeira que envolvia os originais de um livro de poemas. E queria minha opinião. Pediu que eu fosse rápido, pois o volume já tinha data de lançamento: devia coincidir com o dia do seu noivado. Ela esperava fazer uma festa única, apresentando aos amigos, duma talagada, o livro e o futuro marido.

Sem dar tempo de eu dizer nada, foi saindo depois de fixar o prazo que tinha para ler: três dias. Após isso viria buscar os originais com a minha opinião – ou não seria o meu aval? Um tanto contrafeito, eu disse que “está bem” e vi-a partir, rápida como chegou, certamente premida por mil deliberações ligadas ao noivado, ao livro, a um futuro bipartido entre escritora e dona de casa. Vivia o instante saboroso das prévias, pois a felicidade não morre de véspera.

Vi que os poemas eram fracos, a moça não tinha vocação para a poesia.  Nenhum rigor artesanal, nenhuma técnica. O que havia, em linguagem tosca, era dessas confissões que se diz ao padre. E a literatura possui ela mesma o seu ofício de penitência, que é a luta pela forma! Conteúdo e depuração. Em literatura tudo se consuma no ato (de contrição) da escrita. Os verdadeiros escritores sabem disso; escrevendo, pagam suas culpas pelo que dizem e, muito mais, por “como” devem dizer.  

Mas que tem a moça a ver com tais considerações? Ela queria uma aquiescência, um sim literário tão cúmplice quanto o que iria receber do noivo, no altar, dali a alguns dias. E eu iria dizer não. Deveria então ser tático; um desengano naquele momento poderia traumatizá-la, inabilitando-a não só para a literatura (o que seria menos grave), como também para o casamento (isto, sim, de lamentar).

Me incomodava que, no que me dizia respeito, sua festa fosse se frustrar parcialmente. Mas qual o remédio? A moça era noiva mas não era poeta. Queria oficializar tudo num só dia, noivado e livro, mas não demonstrava qualquer jeito para este último. Ocorreu-me perguntar, cá em foro íntimo: e teria vocação para o noivado e o posterior casamento? Talvez ela se perguntasse isto e passasse ao largo da resposta, aspirando tão só ao rótulo, à convenção, ao que todas na vida fazem.

Ah, mas noivado se faz e refaz até não haver mais tempo. Literatura, não. Ela já é um conserto para os desconcertos da vida. O casamento pode ser pífio, equívoco, um triste engano – mas o poema tem que ficar perfeito.

terça-feira, 21 de maio de 2024

A herança de Freud


 

Fiz análise durante um tempo para me libertar da dependência do Rivotril. Eu tinha na época cerca de 26 anos e desenvolvi um brutal processo de ansiedade devido ao conflito que vivenciava no curso de Medicina. Não nascera para ser médico, e me via obrigado a lidar com pacientes em aulas de disciplinas como Semiologia e Técnica Cirúrgica. Segurei o quanto pude, até que veio a reação: síndrome do pânico, taquicardia, sensação de morte e um quadro depressivo-ansioso que durou cerca de dois anos.   

A terapia ajudou a me libertar do Rivotril, um dos medicamentos prescritos na época. A dependência que ele causa, como se sabe, é química e também psicológica. Foi preciso muita conversa com Luiz Maia para, aos poucos, eu me convencer de que a dose mínima à qual chegara, por esforço próprio, não passava de um placebo. Ingeri-la era uma espécie de ritual que aliviava a tensão e me permitia dormir.  

A psicoterapia também serviu para que eu lidasse melhor com velhas culpas familiares. Delas não me libertei totalmente, mas a reflexão sobre o papel de certos entes da família me levou a compreendê-los e aceitá-los. O processo se completava com a literatura, que por sinal serviu de base ao mestre vienense para criar o seu método. “Filho, desiste de lutar contra mim. Há mais de mim em você do que de você mesmo.” Como não vislumbrar o conflito edipiano numa indagação como essa, que aparece num conto de Dalton Trevisan?    

Escrevo estas linhas porque é frequente hoje o debate sobre a eficiência da psicanálise. Segundo alguns, como método terapêutico ela tem perdido terreno para procedimentos mais práticos e objetivos, como os que prescreve a psicologia cognitivo-comportamental. Para outros, entre os quais me incluo, o valor da psicanálise situa-se além do divã; está em seus reflexos na cultura.

A psicanálise não é apenas um método clínico. É uma forma original de ver o ser humano. Antes de Freud “descobrir” o inconsciente, o homem se contentava com a soberania da razão. Achava, com Descartes, que só existia porque pensava. O mestre vienense alargou a dimensão do eu; mostrou quedomínios obscuros, irracionais, que determinam o que somos – ou o que desejamos ser.

O contato com a obra de Freud se intensificou com a elaboração da minha tese de Doutorado. Desde as primeiras leituras dos poemas de Augusto dos Anjos, impressionaram-me as imagens de culpa e melancolia de que eles estão recheados. Por que tanto remorso? – eu me perguntava. Que instrumento teórico seria mais adequado para interpretar aquelas imagens de peso, carga, doença, deterioração da matéria, rejeição da sexualidade?

A psicanálise me permitiu interligar os vários signos que remetem a problemática do “eu” a uma culpa atávica. Alguma coisa como o “pecado original”. Quem Augusto não se depara apenas com o drama do indivíduo; ele não fala apenas de si. Não é um lírico, pois refere uma Dor que é de toda a humanidade.

A leitura da obra de Freud não somente me serviu de orientação para a tese. Também me fez compreender melhor o homem em seu conflito consigo e com a civilização. Li-a (não toda, ainda) como quem um romance com cujo personagem principal é impossível não se identificar: o ego.

Todos somos egos e estamos no centro de uma luta penosa entre uma porção instintiva, que procura realizar seus desejos, e um supervisor às vezes tirânico chamado superego. Nesse drama está, por assim dizer, a nossa essência. 

Temos que servir a dois senhores, como diz o criador da psicanálise. E o mais das vezes rejeitar os prazeres em prol dos interesses da civilização. A vida é renúncia – e vejam como nisso o ateu Freud se aproxima da mensagem cristã. 

sábado, 11 de maio de 2024

Em nome de um pai

                     


   

           Amanhã é o Dia das Mães, uma data que desperta muitas emoções e deve ser comemorada à altura daquelas que homenageia. Fiquei imaginando quem eu poderia escolher como um exemplo de maternidade para marcar a efeméride. Ocorreu-me que seria a mãe daquele rapaz que, dirigindo um Porsche a mais de 100 quilômetros por hora, bateu num carro de aplicativo e matou seu ocupante – um senhor de 52 anos.

        Vocês podem estranhar a escolha, mas, se pensarem bem, vão ver que tenho razão. Avaliemos os fatos: o rapaz, visivelmente alcoolizado segundo testemunhas, foi levado a uma delegacia à qual a mãe também compareceu. Vendo a situação em que estava o filho e sabendo que a embriaguez podia incriminá-lo, tratou de tirá-lo dali com a alegação de que o levaria a um hospital. O garoto podia ter batido com a cabeça e vir a sofrer uma hemorragia interna...

Ante aquela demonstração de zelo – afinal, mãe é mãe –, os policiais permitiram que o levasse sem terem feito o teste do bafômetro. Mas não para onde ela tinha prometido, e sim para casa. Num hospital facilmente perceberiam o estado do rapaz e fariam o registro no prontuário. Mãe que é mãe pensa em tudo para preservar a sua prole. Além do mais, como diz Machado, há mentiras piedosas, e certamente está entre elas a de quem falta com a verdade para proteger um rebento seu.

Talvez alguém ache um despropósito, numa data especial como a de amanhã, exaltar uma mãe cujo filho dirigia sob o efeito de álcool e fazia de uma via urbana pista de corrida (o jovem tinha várias multas por excesso de velocidade e já se envolvera em dois acidentes de trânsito). Isso não seria um sinal de falha na educação? Espera-se se do zelo materno, afinal de contas, que venha a incutir nas crianças respeito pelos outros e responsabilidade por seus atos, e não atitudes insanas que levem à morte de inocentes.  

          Não se pode dizer que essa senhora não procurou transmitir ao filho tais valores. Se fez isso e falhou, a culpa não terá sido unicamente dela. Vivemos num mundo em que são muitos os apelos para que as pessoas tenham dinheiro, status, posição, o que geralmente é medido pelo patrimônio que acumulam.

          O Porsche que o rapaz arremeteu contra o Sandero do motorista de aplicativo é avaliado em um milhão e trezentos mil reais, o que sugere outros bens que a família deve possuir, e não se adquire tais bens centrando os esforços unicamente na educação dos filhos. Ela toma tempo, energia. E a escola pode muito bem cumprir esse papel – mesmo porque o rapaz não devia ter estudado numa dessas instituições públicas que remuneram mal os professores e onde há carência de infraestrutura.   

O fato é que, se a mãe mentiu para retirar o infrator do escrutínio dos policiais, o garoto mostrou que seguiu a lição. Na reportagem que o Fantástico levou ao ar sobre o crime, ele sustentou que antes de dirigir o Porsche não tinha bebido nada de álcool. Estava na companhia de amigos e da namorada, que tomaram uns drinques, e só ingerira água.

          Não deixou claro por que a namorada se recusou a ir com ele no Porsche; sabendo-o alcoolizado, deixou que o banco do carona fosse ocupado por um amigo. O sexto sentido feminino, ou talvez a simples prudência diante do que constatava, terminou evitando que ela talvez viesse a morrer. O tal amigo, mais resistente por ser homem, ainda assim machucou-se a ponto de perder o baço.   

         Dirão que essa é uma história triste e que não deveria ser contada na véspera do Dia das Mães. Discordo. Se uma mãe teve nela certo protagonismo, mesmo atuando com uma ética duvidosa para proteger sua cria, valem o registro e a celebração. Triste mesmo vai ser, para os filhos do motorista Ornaldo da Silva Viana, o próximo Dia dos Pais.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

O poder da frase

           

          Quem não gosta de frases? Tudo o que lemos ou escrevemos ao longo da vida vai se resumir a algumas delas. O resto não vale a pena ser lembrado e não será lembrado nem que valha a pena, pois nossa memória é limitada. A frase existe para nos dispensar de recordar o livro todo, já que permite apreender a essência da obra. E não apenas a essência, como num resumo frio em que o que interessa é a ideia; a frase é também ou sobretudo forma. 

         No nosso mundo rápido e pragmático, é mais fácil ler frases do que ler livros. Estes são longos e tomam muito do nosso tempo mesmo que saltemos algumas páginas. Já as frases são breves e nos liberam logo para atividades essenciais como ir ao supermercado, visitar o shopping ou investir na Bolsa.    

         Pode-se objetar que não há como evitar os livros, pois é neles que as frases estão. Para contornar esse problema, lembro que existem no mercado várias coletâneas só de frases. Pode-se comprá-las como quem compra comida sintética, dessas que vêm em pílulas e concentram na medida exata os nutrientes fundamentais para o corpo. 

          A frase é um concentrado do espírito, com a vantagem de não ter prazo de validade nem efeitos colaterais (a não ser que se trate daqueles arabescos barrocos justificadamente chamados de “cerebrinos”, pois podem dar dor de cabeça. Mas para isso há cura, basta ler um bom autor clássico).   

          Uma frase como: “Os homens se distinguem pelo que aparentam e se assemelham pelo que escondem”, de Paul Valéry, concentra um saber para cuja apreensão seria necessária a leitura de vários romances e tratados de psicologia. O mesmo se diga de: “Por delicadeza, perdi a minha vida” – um verso de Rimbaud que substitui com vantagem muitos livros de autoajuda sobre a necessidade de se dizer “não” ainda que isso pareça indelicado.         

       Alguém já escreveu que tudo existe para terminar em livros. Retifiquemos: tudo existe para terminar em frases. Tanto é assim que antigamente as pessoas procuravam caprichar em seus epitáfios, que eram uma síntese da visão que tiveram da vida. O epitáfio podia ser crente ou cético, otimista ou pessimista, progressista ou reacionário , mas devia aparecer em bom português.

         As pessoas sabiam que, quando os amigos ou parentes fossem visitá-las no túmulo, tudo o que veriam seria aquela inscrição em letras douradas luzindo no negror da morte. O epitáfio tinha que gerar, se não o elogio às qualidades do morto, pelo menos o reconhecimento de que ele se esforçara para escrever bem. Devia ser urdido com cálculo e esmero, para funcionar como o apoteótico “The End” de uma vida o mais das vezes banal.

sábado, 13 de abril de 2024

Dia do Beijo


            O beijo é o selo da paixão. Não se concebe sem ele o encontro de duas pessoas que se desejam. Hollywood, em suas produções românticas, consagrou-o como uma marca de final feliz. Para os casais apaixonados, ele é o prólogo de outras entregas. Daí o seu fascínio.

Nelson Rodrigues escreveu que é com o primeiro beijo que se perde a virgindade. Faz sentido. Quem beija tem a posse não apenas física, como também espiritual, do outro. Ele é uma permuta de haustos que se irradiam a outras esferas do corpo e tocam o espírito. Tanto é assim que as profissionais do sexo não beijam nem se permitem beijar. Quando gostam de alguém, então, esse possível gesto do cliente lhes soa como uma ofensa.  

Há beijos e beijos, claro. Os pudicos, que envolvem apenas o roçar dos lábios; os de língua, próprios dos apaixonados (esses dão água na boca); e os osculares, que parecem mais um tributo do que uma troca sensual.

 Segundo os especialistas, existem técnicas para se beijar bem. Os lábios não podem estar nem cerrados nem muito abertos. No primeiro caso, a crispação pode sugerir que a pessoa não está receptiva ao ato e levar o parceiro a desistir. Às vezes essa impressão é ilusória, como se vê no beijo que Capitu deu em Bentinho; o abrochar dos lábios dela atiça o desejo do ex-seminarista. Já o segundo caso dá a entender que o beijador não passa de um guloso sem estilo. É preciso certo refinamento para não tirar do beijo a estética, um dos seus atributos mais apreciados.    

Tudo que é bom tem seus detratores, e o beijo não escapa a essa regra cruel. Li que, durante ele, os parceiros destinam um ao outro parte da “microbiota” de suas línguas. Fui pesquisar essa palavra esquisita e descobri que ela designa a flora e a fauna de uma região. É isso, amigos, nossa língua é literalmente suja e parte dessa sujeira se transporta à saliva do parceiro quando um casal se beija. Para se ter uma ideia, num beijo apaixonado de 10 segundos ocorre a troca de 80 milhões de bactérias. Que dizer então daqueles que, pelo gosto dos apaixonados, deveriam durar uma eternidade?

         É claro que isso não irá demovê-los da prática de um ato que lhes confirma a paixão e abre a rota de outros profundos e fecundos prazeres. É bom que isso ocorra. Ver um casal de adolescentes se beijando num parque, numa praça ou mesmo “no escurinho do cinema” (como era bom!) nos ajuda a ter fé no amanhã. Nos faz pensar na continuidade da raça, hoje tão comprometida pelos genocidas e fanáticos que parecem querer destruí-la. 

quarta-feira, 20 de março de 2024

A esquecida

 

Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:

          – E se ela deixar de tomar os remédios para pressão?

          – Precisamos ficar atentas. Pode ter um acidente vascular cerebral... – respondeu Soraia, que já pensava na possibilidade de contratarem uma cuidadora.  

          Aos lapsos de memória, acrescentavam-se a tristeza e a apatia. D. Zulmira passava horas numa poltrona da sala, o olhar perdido. Recusava até que ligassem a televisão. Não lhe empolgavam mais as novelas nem os programas gastronômicos, dos quais chegara a copiar receitas para agradar o marido. Valfredo era um gourmet, e a mulher vez por outra lhe preparava comidas diferentes.   

            Para ver se distraía a mãe, Soraia propôs que se mostrasse a ela fotos da família. Sobretudo aquelas em que aparecia com Valfredo, para lembrar-lhe o tempo que passara ao lado do marido. Eram muito bem casados, e certamente as imagens da vida em comum concorreriam para reavivar-lhe a memória e deixá-la mais animada.      

           Assim foi feito. Letícia tirou da gaveta do velho guarda-roupa a caixa em que dormiam, já um pouco amareladas, fotografias da família. Havia muitas dos dois juntos, algumas tiradas quando as filhas ainda nem tinham nascido. O casal aparecia em festas juninas, risonhos, ou enlaçados em bailes de Carnaval. A garota fez uma seleção das que melhor traduziam o convívio amoroso dos dois.

         Numa tarde em que D. Zulmira seguia a rotina de nada fazer e ficar olhando para o tempo, Letícia sentou-se junto dela e começou a mostrar as fotos. Tinha feito uma seleção cronológica, apresentando primeiro as do tempo em que namoravam. Depois vinham as do período em que eram noivos, e por fim as de casados.   

        D. Zulmira olhou de início sem curiosidade, as imagens pareciam não impressioná-la. Mas a partir de certo momento seus olhos começaram a brilhar, e o rosto adquiriu uma expressão intrigada. Olhou para a filha como se não entendesse o que via. Letícia também não compreendeu essa reação, e muito menos quando a mãe lhe fez a pergunta:

        – Quem é essa que está com seu pai?

        – Quê?! Quem poderia ser, mãe? É a senhora!

        – Não sou eu! Tire esses retratos daqui!

        A garota não sabia o que fazer. Chamou Soraia e lhe explicou o que estava acontecendo. A outra ficou surpresa. Não era ela?! Pediu à irmã que recolhesse as fotos e as levasse para a gaveta do guarda-roupa. Antes que Letícia fizesse isso, a mãe pediu para vê-las de novo. Como se quisesse se certificar.  

         – Não sou eu! Seu pai está com outra. Agora fiquei sabendo que ele tinha uma amante...    

        As duas se olhavam, perplexas. D. Zulmira até então esquecia objetos ou nomes de pessoas. Agora parecia não se lembrar do próprio rosto. No dia seguinte, enquanto tomavam café, viram a mãe se dirigir à sala com uma tesoura. Assustaram-se e ficaram imaginando qual seria o seu propósito.    

        Depois de se sentar na poltrona onde costumava passar o dia, D. Zulmira falou:

         – Vão buscar aqueles retratos.

         – Para que a senhora quer? – assustou-se Letícia.  

         – Você vai ver. Quero os retratos aqui.  

         A moça obedeceu e pouco depois voltou com a caixa. Antes de entregá-la, pediu: 

          – Não vá, por favor, fazer nenhuma besteira.   

           D. Zulmira abriu-a e começou retirar as fotos. Olhava-as uma por uma e confirmava:    

           – Não sou eu. Não tenho esse cabelo, nunca usei essas roupas nem esses brincos.  

           Pegou então a tesoura e começou a cortá-las para delas extrair “a outra” que ocupava o seu lugar. As filhas tentaram detê-la, mas logo viram que seria impossível. A mãe tinha uma expressão raivosa e parecia capaz de agredir quem procurasse impedi-la.  

          D. Zulmira colocava as partes cortadas numa mesinha contígua à sua poltrona. Com o tempo, era grande o número de recortes que a mostravam em situações diversas, vestindo diferentes roupas e com variadas expressões fisionômicas – ora risonha, ora atenta, ora plácida, olhando para alguém que não se conseguia ver. Nas caixas restaram as fotos mutiladas, em que também não se sabia quem Valfredo fitava ou tinha nos braços.  

         Terminada a obra, ela fechou o recipiente e deu um suspiro, como se tivesse passado por algo muito incômodo e enfim sossegasse.

         Letícia apontou para os recortes em cima da mesa e perguntou:   

         – O que a gente faz com eles?  

         – Pode esconder ou dar fim. Para mim tanto faz.

sábado, 2 de março de 2024

Dizer pelo excesso

 

Em recente crônica publicada na “Folha de São Paulo”, Sérgio Rodrigues comenta uma frase atribuída a Drummond segundo a qual “escrever é cortar”. O cronista observa que, de tão repetida, a frase se tornou um lugar-comum. Ao mesmo tempo, chama a atenção para o fato de que é preciso relativizar esse conceito; nem sempre o corte serve às intenções do autor.    

Não há dúvida de que a verborragia é um mal de que o escritor, ou redator, deve se livrar. Há nela uma espécie de automatismo que debilita a expressão. A marca do bom estilo é dizer mais com menos, e não menos com mais. Palavras “sobrando” mascaram a essência do que se quer exprimir e fatigam o leitor.   

É conhecida a passagem de Graciliano para ilustrar isso. Ele compara o exercício da escrita ao de lavar roupas. Somente depois de bem torcidas é que elas podem ir para o varal, do contrário a água acumulada impede que sequem e revelem a sua textura. Desidratar o texto, livrando-o do excesso, é também uma forma de fazer as palavras se darem a “ver”. Ou melhor, é um meio de “dizer” (um verbo caro ao autor de “Vidas Secas”) em vez de apenas encher papel.

Em princípio é assim mesmo, e tal ensinamento os professores de redação costumam passar a seus alunos. Nos exercícios de refeitura, o que se recomenda é mudar e cortar palavras. Mudar para que se chegue à adequação semântica. Cortar para deixar emergir o essencial da informação.

Deve-se no entanto ponderar que nem todo escritor é um partidário da concisão. Há deles que têm o exagero como um traço de estilo. Nesse caso a verbosidade é um ingrediente que “funciona”, promove um efeito de sentido que lhes define a persona literária. Para esses escritores o corte deixa de ser limpeza, remoção de excrescências, e se transforma em amputação.  

Augusto dos Anjos é um bom exemplo disso na poesia (na prosa, ele peca pelo rebuscamento e a falta de naturalidade). Seu estilo poético “carregado” reflete o peso que lhe ensombra o espírito melancólico. Há nele um “excesso de representação”, um dizer a mais aparentado ao Barroco. Uma das marcas desse excesso é a abundância de adjetivos, que vai de encontro ao que preceituam os defensores do estilo conciso.

            São comuns em “Eu e outras poesias” locuções como “largos fios grossos”, “aberratórias abstrações abstrusas”, “hialina lâmpada oca”, “bastos tojos acres”, “abstrusa ciência fria”, “absconsa tábua rasa”, “arimânico gênio destrutivo”, “escaveirado corrupião idiota”, “ríspidas mágoas estranguladoras” e outras em que dois adjetivos modificam um substantivo. Muitas vezes o atributo posposto apenas reitera o sentido do que vem anteposto ao substantivo. Ou seja: não representa um acréscimo de informação, mas tão somente uma reiteração expressiva. Também serve, é claro, ao preenchimento métrico do verso. 

         A abundância de adjetivos é apenas um traço do estilo do paraibano que caracteriza o excesso acima referido. Há muitos outros, que estudamos com detalhes em nossa tese “O evangelho da podridão”. Eles confirmam o quanto é relativa a máxima de que “escrever é cortar”.

          Certamente ela cabe melhor no domínio estritamente redacional, em que se tende ao “grau zero da escritura”. Ou seja, em que se busca a transparência das ideias e o rigor das informações, numa escrita tanto quanto possível destituída de recursos literários. No domínio da criação artística, é preciso ser prudente ao “escoimar” o texto do que nele aparentemente sobra. Muitas vezes está nas sobras, nas palavras a mais, o essencial do que o autor quer dizer.

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