sábado, 13 de fevereiro de 2021
O complô
Não se sabia se
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–
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A essas
Anacoluto foi
– Seja o
Ouvindo terça-feira, 9 de fevereiro de 2021
Demissão exemplar
Donaldo Trump apresentou durante vários anos o programa “O aprendiz” na NBC americana. Nele o ex-presidente avaliava candidatos que pretendiam vencer no mundo corporativo, medindo-lhes atributos como ousadia, planejamento, espírito empreendedor. Caso o candidato se mostrasse inapto em um desses quesitos, receberia do apresentador uma sentença que acabou virando um bordão: “Você está demitido!”.
Há alguns dias a América demitiu Trump.
O povo americano derrotou-o em eleições limpas e, tudo indica, pode impedi-lo
de se candidatar em próximos pleitos. O que deu errado na estratégia do guru empresarial
que, na gerência do governo americano, não foi capaz de revelar alguns dos
atributos que costumava cobrar de outras pessoas?
Li
que a maior influência na formação do ex-presidente veio do seu pai. O velho detestava
perder e inculcava esse temor nos filhos. Queria que cada um deles fosse um
“matador” – metáfora que sugere a disposição feroz e inclemente de vencer mesmo
ao custo de destruir os adversários.
A
lição paterna frutificou no menino Trump, que passou a cultivar a obsessão do triunfo
a qualquer preço e custo. Essa mentalidade até pode funcionar no mundo corporativo,
onde eventuais rasteiras nos adversários ficam circunscritas aos limites das empresas.
Mas é extremamente arriscada no universo político, que exige de seus atores um
amplo compromisso com a coletividade. Para medir a prática desse compromisso
existe a imprensa, que tende a esquadrinhar com um faro de pitbull faminto o
comportamento dos eleitos.
A
derrota de Trump não deixa de representar uma lição. Mostra que a luta pelo poder
não é um vale-tudo no qual a mentira, o cinismo e a arrogância vigoram
impunemente. O presidente derrotado sustentou até onde pôde a mentira de que
houvera fraude nas apurações. Ou melhor, até onde ficou claro o objetivo dessa inverdade:
incutir nos aliados uma indignação que os levasse a um protesto radical, como foi
a invasão do Capitólio. Cego para permanecer no poder, Trump não percebeu o
risco e a gravidade de tal sublevação, da qual resultaram tiros, depredações e
mortes.
Fala-se
agora que, voltando aos negócios, ele deve investir num canal de TV. Ou
comandar uma nova versão de “O aprendiz”, desta vez acoplando o programa ao seu
propósito de voltar à Casa Branca em 2024. Essa possibilidade não deixa de ser
irônica. Com que credibilidade ele vai dar conselhos às pessoas sobre como
serem profissionais vitoriosos? Isso implicaria preparar também para a derrota,
o que o ex-presidente mostrou que não sabe fazer. Ele perdeu feio e mal,
possivelmente sepultando uma carreira que poderia ter continuidade caso o
fracasso fosse encarado como um acidente de percurso. A empáfia e a cega
obstinação pela vitória não o permitiram enxergar isso.
sábado, 2 de janeiro de 2021
Um brinde aos sobreviventes
Sempre que vai um ano e vem outro, é comum refletir sobre o que se viveu e fazer planos para o futuro. O tempo, afinal, existe para isto: levar-nos a esquecer as frustrações pelo que não deu certo e nos estimular a fazer novos planos. Não há dúvida de que no atual momento, com o vírus circulando por aí, as metas vão encolher bastante. Como projetar viagens não sabendo se será possível realizá-las? Como programar festas, de aniversário ou do que for, se os epidemiologistas continuamente nos alertam sobre o risco das aglomerações?
A luta contra
a pandemia está sendo difícil porque nem todos estão interessados em colaborar.
Se estivessem, abdicariam um pouco dos próprios interesses em benefício do bem
comum. Por que não fazem isso? Talvez por se acharem “imortais”, ou pensarem que
estatisticamente têm poucas probabilidades de ser acometidos pela doença. Como
se ela só atingisse os outros... É o velho egoísmo triunfando sobre as nossas
ralas propensões altruístas.
2021
vai ser o ano da vacina. Ou das vacinas, pois haverá muitas, com diferentes
níveis de eficiência para as distintas faixas da população. O vírus não se
extinguirá sem que em nosso organismo proliferem os anticorpos capazes de
devorá-los. Curiosamente, ainda assim há quem se oponha a esse inestimável recurso
da ciência – por ignorância, birra ou (o que parece mais comum) posicionamento
ideológico. Chega-se ao ponto de desejar o fracasso de quem se empenhe em
importar um tipo de vacina que tenha mais eficácia na cura da doença.
O réveillon
é também sinônimo de Carnaval, mas fica difícil antecipar uma folia que não vai
se prolongar em fevereiro. Principalmente se a gente se lembrar de que, no
período carnavalesco passado, foi o vírus quem fez a festa. A tendência (pelo
menos para os prudentes) é ficar em casa abraçando os parentes próximos, com os
quais se tem a certeza de não correr riscos. Haverá em tudo isso algo de
sombrio, claro. É grave e penoso meditar sobre o tempo quando paira no
horizonte a ameaça de um vírus letal. Ele é uma sombra que só irá se desfazer
quando a vacina começar a produzir os seus efeitos.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Que mistério tem Clarice?
Uma pausa, leitor. Hoje não se fala de pacote, de violência ou de praia suja. Estes são assuntos urgentes e práticos, que antes nos demandam ação do que reflexão. E o mundo não se conserta mesmo. Vamos dar um tempo a essa agitação frívola, nociva tanto ao corpo quanto à alma, e conversar com alguém muito especial. E ouvir coisas certamente profundas sobre os mistérios da vida e do ser.
Isso te assusta e agride? Deixa de ser tolo. A vida é
cheia de mistério e não é por negá-lo, querendo em tudo o raso e o chão, que
ele se arredará de ti. Não vires a página; fica. E vamos conversar com Clarice
Lispector. Foi numa tarde de domingo que ela visitou o meu escritório. Nessa
ocasião, como sabes, algumas pessoas estão na igreja, outras nos bares, outras
apenas sozinhas - esperando que o domingo passe. Clarice veio sem manto e sem
luz, com a humildade dos verdadeiros santos. E eu fui, como quem não queria
nada e em verdade querendo tudo, lhe fazendo as perguntas:
P-
Se tivesse de escolher entre a literatura e a maternidade, o que você
escolheria?
R-
(...) eu desistiria da literatura. Não tem dúvida que como mãe sou mais
importante do que como escritora.
P-
A mãe deve seguir alguma diretriz especial?
R-
À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência
da gente é continuar a ser enorme.
P-
Qual a sua mais remota lembrança ou impressão desta vida?
R-
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por
motivos que aqui não importam, eu de algum modo sentia que não pertencia a nada
e a ninguém. Nasci de graça.
P-
E da outra vida, há alguma remota lembrança ou impressão?
R-
Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo
amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.
P-
Lendo os seus livros, a gente percebe que não apenas os seres humanos - também
os bichos lhe impressionam.
R-
(...) sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus,
material que não inventou a si mesmo (...); e como uma das formas acessíveis de
gente.
P-
Qualquer maneira de chorar vale a pena?
R
- Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas
correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem.
P-
Você se considera uma pessoa ordenada?
R-
(...) as pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque
internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes sirva de
segurança.
P-
Escrever lhe é substancialmente necessário?
R-
Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É
neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade.
P-
O escritor tem que estudar para escrever?
R-
(...) para escrever, o único estudo é mesmo escrever.
P-
Que pedido você faria ao linotipista que compõe os seus textos?
R-
(...) não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase
respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui
obrigada a me respeitar.
P-
Hoje é domingo, Clarice, e nem eu nem você estamos na igreja. Você acredita em
Deus?
R-
Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. (...)
Deus tem que vir a mim, já que não tenho ido a ele.
(Em “A rosa fenecida”, Ideia, 2002)
domingo, 13 de setembro de 2020
A vacina e seus riscos
(Leia se você pretende se vacinar!)
A suspensão dos testes com a vacina de Oxford contra a Covid-19 foi um alerta. Deve-se ficar atento a outros possíveis efeitos colaterais. O assunto me preocupou tanto, que tratei de pesquisá-lo. Seguem as minhas conclusões, que sem dúvida prestarão um grande serviço à coletividade.
A vacina aumenta o nível de glicose no
sangue das pessoas que costumam comer muito doce. Há referência a um caso de hiperglicemia
numa mulher que, na véspera de se vacinar, comeu sozinha uma barra de chocolate
e um pote de cocadas.
A vacina também eleva os batimentos cardíacos
dos indivíduos que ficam muito tensos no momento da aplicação. Por isso ela
deve ser ministrada com prudência nos cardíacos e nas pessoas com pressão alta.
No intuito de se livrar de uma enfermidade, elas podem acabar morrendo de
outra.
Outro efeito observado foi um intenso
lacrimejamento num homem que resolveu tomar a dose ao ar livre, mais
especificamente junto a um terreno empoeirado em que ventava muito. Mal a
enfermeira injetou o líquido (o que coincidiu com uma rajada mais forte de vento),
os olhos do homem se avermelharam e começaram a lacrimejar.
Certo instituto holandês (que pretendia abafar
o caso) observou um desagradável efeito colateral. Trata-se do aumento de gases
e flatulência num indivíduo que, dois dias antes de se vacinar, comeu três ovos
com duas batatas-doces. A vantagem foi que esse tipo de reação obrigou as
pessoas da família a usar máscaras dentro de casa. A esposa do sujeito chegou a
colocar simultaneamente três e, flagrada pela reportagem de uma emissora de TV,
acabou se convertendo num símbolo de adesão às medidas protetivas.
Para tornar a pesquisa mais completa,
fui a periódicos científicos. No rodapé de um artigo publicado pela revista “O Laçarote”
(versão brasileira da britânica “The Lancet”), fiquei sabendo que a vacina
produz taquicardia e dispneia em pessoas que tendem a entrar em pânico quando
se deparam com uma agulha de injeção.
Agora uma informação que deve refrear o
entusiasmo dos que depositam esperanças na vacina russa: parte dos voluntários
desistiu de tomá-la com medo de ser envenenada. Não adiantou os médicos
explicarem que só corriam esse risco os opositores do governo; os apoiadores possuíam
um antídoto natural. Esse impasse fez com que se interrompessem as pesquisas e
se começasse a recrutar voluntários em outros países. Parece que o Brasil está
entre as opções.
Um curioso efeito colateral me foi revelado
por Cruzeta Fernandes, uma infectologista que pediu para não ser identificada. Segundo
ela, a vacina produz enervamento e comichões nas pessoas que, para tomá-la,
precisam enfrentar longas filas. Os médicos haviam chegado a essa conclusão com
base no caso de uma mulher que, depois de esperar cerca de quatro horas, arrebatou
a seringa e espetou a agulha no braço da residente médica que ia fazer a
aplicação. Vacinada sem querer, e ainda não confiando na eficiência do produto,
a residente entrou num grave quadro depressivo e teve que ser recolhida a um
hospital psiquiátrico.
Como veem, são muitos os riscos. Talvez
o mais sensato seja seguir a orientação do Presidente e não se vacinar. Ninguém
sabe que outras terríveis consequências podem advir aos que, contra o apelo
do nosso mandatário maior, prefiram seguir as orientações da Ciência.
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Notas sobre a pandemia (29)
Lavar bem as mãos, usar máscaras,
não se aglomerar. Esses mandamentos ainda são repisados pelos médicos para
evitar a infecção pelo coronavírus. O problema é que muito poucos os observam. Nos
últimos dias, por sinal, a população parece que resolveu sair “por conta
própria” da quarentena. Praias e bares cheios atestam isso. E poucos ali usam
máscaras. Parece que se abateu sobre todos um cansaço dos meses de forçada
reclusão, e decidiram relaxar as medidas de segurança. Com base em quê, não se sabe. O número de
mortos ainda é alto, e o vírus continua a se disseminar. Por que então o impulso
festivo de se reunir em locais públicos, como se comemorassem uma vitória que ainda
está longe de acontecer? Muitos passaram do negacionismo contido à euforia
irracional, desprezando frivolamente os riscos. Segundo médicos e infectologistas,
o preço a pagar por uma atitude como essa pode ser alto. Mas quem na balbúrdia
dos bares e no torvelinho dos aglomerados urbanos vai ouvir a voz da ciência?
terça-feira, 25 de agosto de 2020
O óbice de ser obeso
Li que a obesidade agrava a situação dos que são
infectados pelo coronavírus. Isso tem feito alguns países, como a Inglaterra, tomar
medidas duras para impedir que a população aumente de peso. Lá as lanchonetes
não podem mais fazer acréscimos gratuitos aos cardápios convencionais, por
exemplo. Nem é permitido, em alguns restaurantes, repetir os pratos.
O alerta dos médicos para os riscos de ser gordo e contrair
o vírus anda assustando os que estão acima do peso. Sempre se soube que o
sobrepeso faz mal por congestionar as artérias e sobrecarregar o coração. Mas dava
para conviver sem maiores angústias com essas ameaças. Se elas vinham a matar, era
de forma lenta, graças à conjunção dos maus hábitos alimentares com o
sedentarismo. Agora, não. A covid-19 mata em pouco tempo e de forma dolorosa.
Como a pandemia parece se alastrar, e não há sinais de
que perca força nos próximos meses, resta aos obesos agir rapidamente. É
preciso que obedeçam ao que mandam os epidemiologistas, evitando sobretudo o
contato social. Mesmo essa medida tem seus riscos, pois ficar em casa gera um
tédio enorme e para escapar a ele as pessoas acabam comendo mais do que devem (ou
podem) suportar. Além disso, o recolhimento domiciliar leva ao sedentarismo, o
que impede a queima de calorias (nem todo o mundo pode instalar uma academia na
copa, tem ânimo par fazer flexões no quarto ou está disposto a dar inúmeras idas
e vindas da sala à cozinha).
Há quem celebre a mortal suscetibilidade dos obesos à covid-19
por achar que a doença fará as pessoas comerem menos e se exercitaram mais. Ninguém
sabe, afinal de contas, quando um novo vírus vai aparecer (e talvez bem mais
nocivo aos que se empenham desbragadamente em satisfazer o apetite). A
obesidade é uma patologia e como tal deve ser tratada...
Não se pode contestar esse raciocínio. A obesidade é
de fato uma doença, tanto que comumente se aplica a ela o adjetivo “mórbida”.
Nunca ouvi falar de magreza mórbida, embora a esqualidez de certas pessoas
(penso nas modelos anoréticas, por exemplo) sugira um quadro clínico limítrofe
da morte. Mas a ideia de que o vírus fará as pessoas perderem peso e tornará
mais saudável a humanidade não deixa de refletir o velho preconceito contra os gordos.
E, com isso, de prestigiar o padrão de beleza exaltado pela sociedade de
consumo.
Sejamos
prudentes ao rejeitar os que estão acima do peso. Há quem se sinta bem com os quilos
a mais e contagie os outros com esse prazer. Ao gordo, com ou sem razão,
costumamos associar a tolerância e a bonomia. Poucos o ligam à maldade, tanto é
assim que raros são os vilões das histórias em quadrinhos que ostentam um largo
corpanzil. Parece que o excesso de peso tolhe a disposição para agredir os
outros. Sem falar que é para os gordos mais difícil correr da polícia.
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Naquele dia Osvaldo abriu os olhos e, por uma espécie de automatismo, levantou-se da cama e foi olhar o relógio. Deu-se então co...
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Cresci ouvindo dizer que Brigitte Bardot era uma figura pecaminosa, imagem da luxúria e da devassidão. Isso faz muito tempo, claro, e tinha ...
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Dizem que no início dos tempos não havia distância entre as palavras e as coisas . Cada objeto ou ser ...





