terça-feira, 29 de abril de 2025

O direito dos velhos

 


É comum em saites de divertimento ou em redes sociais a exposição de pessoas quando estão novas e quando envelhecem. De forma por vezes maliciosa, os redatores expõem as fotos com legendas que enfatizam o contraste entre o rosto de ontem e o de hoje. O alvo é quase sempre alguém que pela beleza ganhou fama, admiração, suspiros apaixonados dos fãs. Como um contraste a isso, o autor das postagens parece lembrar: “Quem te viu, quem te vê”.

O que está na base dessa atitude, mais do que a disposição de ferir ou depreciar figuras específicas, é um generalizado desprezo pela velhice. Embora se viva mais hoje, e os idosos ou mesmo os velhos cada vez mais frequentem locais como clubes e academias, há por parte de muita gente uma disposição hostil para com eles.

Essa hostilização faz pensar, por antítese, no chamado "Poder Jovem", expressão associada ao livro de Arthur José Poerner que exalta a disposição política dos estudantes brasileiros durante o período da ditadura militar (1964-1985). O livro de Poerner “narrava a história do movimento estudantil e sua atuação em momentos cruciais da história do país, ressaltando o potencial dos jovens como agentes de transformação social e política.”

A obra destaca o idealismo da juventude e a sua vontade de contestar o status quo então vigente, marcado pela repressão aos movimentos sociais e pelo cerceamento de liberdades fundamentais ao indivíduo. Disso veio uma espécie de entronização dos jovens, considerados a partir daí como os principais agentes de transformação da sociedade. Chegou-se a dizer que não se devia confiar em ninguém com mais de 30 anos, como se a idade fosse um referencial de caráter.

No poema “Velhice”, Olavo Bilac parece antecipar o que hoje é corriqueiro nas redes sociais. Sem meias palavras, escreve: "A velhice é cousa vil!/ Faz a alma informe e feia./ Desfaz a antiga ideia/ Da formosura juvenil." São versos que pintam de forma nostálgica e sombria o envelhecimento. E tanto mais deprimem, quanto mais ressaltam a feiura da velhice em contraposição à beleza da juventude.

Será mesmo a velhice uma “coisa vil”?  O que haveria de desprezível nas pessoas que estão nesse período da vida? Elas não têm mais a beleza da juventude e padecem de achaques que as tornam por vezes impacientes e difíceis de conviver. Por outro lado, têm a experiência, que segundo Sartre é mesmo um direito dos velhos.

O parnasiano carregou nas tintas, sem dúvida. Há em favor dele, digamos assim, a ressalva que a esses versos faz Rubem Braga numa de suas antológicas crônicas. Lembra o cronista que, de fato, num poema Bilac considera “vil” a velhice – mas, num dos seus textos em prosa, afirma desejar “envelhecer sorrindo”. Tal expressão, longe de indicar ressentimento ou desconforto, sugere uma alegre resignação com a passagem do tempo.

          Talvez o verbo “sorrir” no verso bilaquiano indique mais do que a aceitação do inevitável ciclo vital. Indique também a percepção, trazida pela maturidade, do que a vida realmente é. E, sobretudo, traduza com algum ceticismo a desconfiança nos que se arrogam ter a verdade e deter o poder – tenha este o rótulo que tiver.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

História indefinida

             

           Referem as crônicas que certo dia Alguém se apaixonou por Ninguém.  Quando ou como se conheceram, nunca se soube. Mas Alguém comentava com amigos que Ninguém era muito diferente da Outra. Sim, porque a Outra, com quem tivera uma vaga relação, de Ninguém nem perto chegava. Jamais conhecera um ser tão misterioso, difuso, inabordável e, no entanto, tão certo e presente.

O problema é que, depois de tê-la encontrado um dia (se não foi sonho...), Alguém perdeu Ninguém de vista. E de audição, olfato, gosto. Ela (pois Ninguém é mulher) em lugar nenhum estava. Onde morava Ninguém? Teve então outro sonho, em que Algo lhe soprou: “Ninguém só pode morar Alhures...”. E Alguém tratou logo de ir para lá.

Varou estradas, escalou montanhas, percorreu inúmeras trilhas, e nada de chegar Alhures. Que ficava sempre além. Desencantado, perguntava a Todos se a conheciam, se por acaso a tinham visto. Respondiam sempre que não. Como era ela? Com quem se parecia? Ninguém só se parecia com ela mesma – e às vezes inexplicavelmente com Todas, o que o confundia ainda mais.  

Tentando vislumbrar o rosto da amada, Alguém se lembrou do sonho em que a vira – ou imaginou tê-la visto. Já não sabia se aquilo fora mesmo um sonho, se no sonho havia um rosto de mulher e se a mulher com quem sonhara era a mesma que passou a procurar. Tudo lhe parecia muito vago.  

Um dia cansou, desistiu. Talvez procurasse a pessoa errada, confundindo Ninguém com Todas, ou Todas com Nenhuma, que por sinal eram muito semelhantes. Certamente Ninguém vivia não aqui nem Alhures, mas ao léu. 

Pensava em desistir da procura, quando então apareceu o Outro – um velho amigo –, dizendo-lhe que deveria continuar. Perguntou-lhe o que ganharia se desistisse depois de tanto empenho. Nada. E acabaria perdendo Tudo. Ou Todas. Alguém ponderou que não era egoísta a ponto de querer Todas, ou Qualquer Uma. Ao que o Outro confirmou, um tanto filosoficamente, que querer Todas era uma forma de ter Nenhuma.  

Propôs-lhe então que passasse um tempo sozinho, para esquecer a fugidia amada, e depois procurasse Outra. “Outra?” Sim, outra que com Ninguém se parecesse. “Outra no lugar de Ninguém? Nunca.”

          E assim, entre tantos indefinidos, Alguém deu por finda a sua busca. Não estava triste. Consolava-o saber que Ninguém era mesmo de ninguém.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Do cochilo

Admiro quem tem o hábito de tirar um cochilo durante o dia. Comigo isso é difícil, e presumo que o motivo seja a falta de hábito. Segundo os médicos, tirar a soneca diária faz bem e – o mais curioso – não atrapalha o sono noturno. Entre as suas vantagens, pelo que li numa rápida consulta à internet, estão a melhora da atividade intelectual, a redução do estresse, a maior eficiência dos batimentos cardíacos e o aumento do bom humor.

Esse último efeito é o que mais aprecio, tendo em vista o mau humor que atualmente impera, sobretudo, entre os habitantes das grandes cidades. A violência, as dificuldades econômicas e o atropelo urbano vêm espicaçando os nervos das pessoas, que tendem a se tornar intolerantes e agressivas. Não lhes faria mal parar por alguns instantes e se deixar embalar por Morfeu, cujas virtudes hipnóticas são ressaltadas na mitologia.

A hora ideal para isso é depois do almoço, pois nesse momento o processo da digestão ajuda. Sabe-se que, após as refeições, aumenta o nível de potássio no organismo. Esse mineral, segundo li, “pode influenciar o sono de forma indireta ao contribuir para o relaxamento muscular e a regulação da pressão arterial”. Segundo ainda a matéria, isso “é parte de um mecanismo homeostático que busca manter o equilíbrio eletrolítico do organismo”. Coisa séria e necessária, como veem. Do aumento desse mineral não se escapa, bem como do efeito sedativo que ele provoca.  

O governo deveria então estimular o hábito da sesta, instituindo algo como o Auxílio-Cochilo ou oferecendo dedução no Imposto de Renda a quem provasse que tira uma soneca de pelo menos meia hora depois de almoçar. Não era preciso que o País parasse, como ocorre em certas partes da Europa, mas a medida concorreria para uma melhor convivência entre seus habitantes – vários deles com o inevitável déficit de sono decorrente das inúmeros exigências da vida moderna.

Mas é preciso ponderar que, para fazer bem, o cochilo tem que ter hora e, sobretudo, ser voluntário. Cochilar na hora errada, e quando não se quer, pode ser prejudicial à pessoa. O povo, que sabe das coisas, traduz essa verdade no conhecido ditado de que “cochilou, cachimbo cai”. O sentido é um tanto metafórico, eu sei, mas não deixa de se aplicar aos que literalmente adormecem e se subtraem aos deveres impostos pela realidade.   

Nas estradas, por exemplo, o cochilo pode ter consequências letais. São muitos os acidentes provocados por quem dirige tresnoitado ou depois de uma gorda refeição.  Em nível de menor gravidade, não são poucos os indivíduos que dormitam no cinema e perdem as melhores partes do filme. O fato de suas mulheres beliscá-los quando começam a roncar não resolve em definitivo o problema; algum tempo depois, o potássio os leva a embarcar no sono de novo.

          O cochilo pode ser também um sinal de enfado diante de algo que aborrece ou amofina. Na impossibilidade de rechaçar de maneira explícita a experiência maçante, a pessoa fecha os olhos e, digamos, escapa para dentro de si. Espero que não seja essa a reação do leitor diante deste texto, mas, antes que boceje, acho que chegou a hora de colocar um ponto final.

domingo, 30 de março de 2025

Um nome de mulher

Recebi com tristeza a notícia da morte de Heloísa Teixeira, que tive como professora quando fiz o Mestrado na UFRJ. As aulas ocorriam na Faculdade de Comunicação, na Praia Vermelha, e eram marcadas pela informalidade e o bom humor. 

O clima era bem mais ameno do que o que imperava no prédio da Av. Chile, onde então funcionava a Faculdade de Letras e pontificavam figurões como Afrânio Coutinho, Eduardo Portela e outros.

Nos cursos de Heloísa tomei contato com a poesia da chamada Geração Mimeógrafo, que surgiu durante a década de 1970 como uma forma de resistência ao regime militar e produzia uma arte dita marginal. 

Dessa geração faziam parte, e foram por nós estudados, poetas como Cacaso e Ana Cristina César, que editavam seus textos em mimeógrafos e procediam a variados experimentos linguísticos; era comum associarem o erudito ao popular. À expressão dos dramas pessoais, aliavam a preocupação com o momento que o País atravessava.

Heloísa foi uma defensora do movimento feminista. Via nele um meio de afirmação das mulheres no plano da sexualidade e da atuação político-social. À mulher cabiam outros papéis além dos de mãe e dona de casa, os quais lhe foram atribuídos pelo machismo hegemônico. 

O contato com poetas ainda não incluídos no cânone acadêmico ampliou-me o conhecimento da nossa literatura. Foi enriquecedor perceber que, a par de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e outros frequentemente trabalhados na academia, havia quem procurava inovar com precários recursos editoriais e uma radical entrega de si mesmo sem a presunção de sucesso ou glória. 

Devo à mestra que acaba de nos deixar a percepção disso. 

Quando fui seu aluno, ela tinha o sobrenome de Chico e do seu pai, Sérgio. Embora tivesse se separado, não retirara o “Buarque de Holanda”  que adquiriu do ex-marido. Isso me despertava a curiosidade; sem conhecer direito a história,  eu imaginava o seu parentesco com o autor de “A banda” (um ingênuo delírio de fã, como veem…).

Só muito depois ela decidiu mudar o sobrenome para “Teixeira” — segundo li, “como uma forma de resgatar sua identidade materna e homenagear sua mãe”. 

Em entrevistas, relatou que “a decisão foi tomada após anos de reflexão sobre o papel da mulher na sociedade e a importância de valorizar a ancestralidade feminina”. A mudança teve, então, um valor simbólico. Refletia a coerência com os princípios identitários que pregava e se constituía em mais um elemento de afirmação pessoal.





quinta-feira, 27 de março de 2025

Algoz e vítima

O bullying sempre existiu no ambiente escolar. É uma prática que reflete a natural tendência do ser humano a julgar, ou mesmo rejeitar, os que lhe parecem inferiores do ponto de vista físico ou intelectual. Entre os adolescentes, que passam por transformações que lhes fragilizam a personalidade, o bullying pode ter efeitos desastrosos. Um desses efeitos – o assassínio de uma garota por um colega de classe – é o tema da série “Adolescência”, que atualmente lidera a audiência na Netflix. 

Muito já se escreveu a seu respeito, de modo que fica difícil dizer algo novo. Falou-se, por exemplo, sobre a filmagem de cada episódio num único plano-sequência, o que concorre para fazer o espectador “participar” da história. Ou sobre o sensível trabalho dos atores, exigidos ao máximo devido à maneira como a série é filmada.

O que mais me chamou a atenção foi a forma como os roteiristas expressam as razões pelas quais o garoto Jamie comete o crime. Sabe-se que elas dizem respeito tanto ao ambiente escolar quanto à negligência da família – mas isso só fica bem claro no fim. 

O roteiro não enfatiza ao longo da trama nenhuma das duas. Dá indicações, mostrando por exemplo a indisciplina de determinados alunos em classe diante de professores que não são levados a sério, ou o temperamento violento do pai do menino. Cabe ao espectador ir colhendo as evidências para atribuir o devido peso a cada um desses motivos. 

A série é dolorosa, mesmo cruel, por mostrar que o ato de tirar a vida da garota foi a resposta a um profundo sofrimento interior. Jamie investiu contra alguém que lhe ressaltara a condição de “incel” (involuntariamente celibatário), confinando-o a uma desesperadora solidão. Isso obviamente não justifica o crime, mas dificulta a atribuição de responsabilidade e concorre para que se veja o menino como algoz e também vítima.

O reconhecimento dessa dualidade se espelha nos olhos horrorizados da psicóloga que o interroga no lancinante terceiro capítulo – o melhor da série. Ela convive com o garoto durante quatro sessões marcadas por alternâncias de humor e uma violência ora contida, ora expressa por acusações de ambas as partes. Sua impotência para fazer um julgamento adequado, mesmo percebendo-lhe a culpa, acaba desmoronando-a emocionalmente.            


sexta-feira, 21 de março de 2025

Para melhor conhecer a nossa língua

 

“Em bom português…”, coletânea da qual participo, é um conjunto de reflexões sobre a nossa língua organizado pelo professor e gramático Fernando Pestana. 

Publicada pela Kírion, a obra inclui artigos e crônicas selecionados do blog “Língua e Tradição” ao longo dos últimos quatro anos. Dela participa um grupo de estudiosos que refletem sobre questões que se põem a quem ensina ou simplesmente usa o português — entre elas, o papel da norma culta e a possibilidade da sua flexibilização nos registros informais;  o peso da tradição nas escolhas linguísticas da modernidade; o efeito da educação na formação dos usuários; entre muitas outras.

A par desse lado mais sisudo, há textos que “brincam” com as palavras mediante jogos fônicos e semânticos reveladores do potencial lúdico da linguagem. São uma forma atraente de abordar fenômenos como a polissemia, homofonia e a paródia, que procedem à desautomatização dos sentidos e por vezes têm efeito de humor.

O rigor na seleção dos textos, a amplitude dos temas  e o tratamento objetivo que a eles é dado são a garantia de uma leitura enriquecedora e prazerosa. Indico vivamente a obra.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Adeus a Affonso

 


Affonso Romano de Sant’Anna aliava o conhecimento da literatura ao talento para a criação literária (foi ensaísta, cronista, poeta).

Como estudioso, pesquisou as matrizes de dois procedimentos que se refletiram em muito da nossa produção – a paráfrase e a paródia. Esta última categoria, trabalhada em alguns dos seus textos e brilhantemente explorada nas aulas, levou-nos a compreender melhor a obra de um Oswald de Andrade, um Drummond ou um Mário Quintana (para citar alguns exemplos).

Politicamente, preferia questionar “que país este” a propor estratégias de engajamento social, fazendo desse questionamento um estímulo para que se pensasse além do simplismo das ideologias. 

Os cursos que fiz com ele na Pós-Graduação da UFRJ ajudaram-me a entender a literatura como um continuum no qual as rupturas são muitas vezes retomadas de procedimentos anteriores. Num deles, sobre literatura e carnavalização, escolhi apresentar na avaliação final monografia sobre o romance “A verdadeira estória de Jesus”, de Waldemar Solha, inserido no corpus a ser analisado.

Não deixa de ser curioso que ele tenha morrido durante o Carnaval, tema que abordava em suas aulas sobre a “sátira menipeia” – protótipo da “inversão” presente nos festejos dessa festa pagã e profana que realça a feição contraditória do nosso espírito. 

Evoé, Affonso, misto de gentleman e disfarçado folião! Se outro mundo existe, foste recebido não por um coro angelical, mas por uma trupe de mascarados que escondem sob o disfarce o que há de intensamente humano em nós. 

Visita de aniversário