sábado, 10 de fevereiro de 2024

Carnaval ao pó da letra

Não estranhem o título. Ele faz referência ao hábito politicamente correto de proibir letras de Carnaval nas quais haveria preconceito contra determinados grupos. Tentaram fazer isso com “Tropicália” e “Cabeleira do Zezé”, mas como se viu a tentativa não vingou. O pessoal continua dando vivas à “mulata ta ta ta ta” e perguntando se, com aquela juba farta, o tal Zezé... “é” ou não.  

Mas o politicamente correto é insaciável. Quem pensa que ele se sentiu derrotado não sabe de que a sua voracidade é capaz. Diante disso, resolvi dar minha modesta contribuição. Afinal de contas, o que caracteriza o Carnaval é a inversão de valores e papéis sociais. Basta lembrar que na Idade Média, durante essa época, costumava-se destronar a autoridade real e coroar um indivíduo do povo. Daí veio a figura do Rei Momo, que hoje circula por ruas e salões afetando uma majestade que está longe de ter. 

Mas vamos ao meu contributo, que consistirá por enquanto numa breve indicação de músicas que devem se acrescentar às duas já mencionadas.   

Comecemos por “Aurora”. Trata-se de uma marchinha aparentemente inócua. Essa impressão muda quando se observam com atenção os versos iniciais: “Se você fosse sincera,/ô ô ô ô Aurora,/ veja só que bom que era,/ô ô ô ô Aurora.”  A desconfiança sobre a sinceridade de Aurora reflete uma mentalidade machista. Se não é sincera, Aurora mente, e mentindo lança sobre as pessoas do seu gênero a sombra do ardil e da trapaça. Como não relacionar isso com a mentira que Eva pregou em Adão para que ele, inocentemente, comesse a maçã? Proponho então que se decrete o crepúsculo de “Aurora”, deixando de cantá-la e dançá-la nas ruas e nos salões.

E “Máscara Negra”? Todos conhecem o clássico de Ze Kéti e Pereira Matos. É sem dúvida uma música bonita, mas lamento dizer que não deve mais ser cantada. Se não, vejamos. No finalzinho da letra o “Pierrô” diz à “Colombina”: “Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é Carnaval.”  Perceberam a atitude autoritária e truculenta? Quem pode negar que isso é assédio? Ele se propõe a beijar a mulher sem o seu consentimento e cinicamente pede que ela não o leve a mal (ou seja, tem consciência de que o beijo vai de alguma forma importuná-la). “Máscara negra” deve ficar de fora em respeito à integridade do corpo da mulher, que tem o direito de beijar (e ser beijada) por quem ela queira. Afinal de contas, Não é Não.

Acho que se deve incluir também “Jardineira”. Essa marchinha parece de um lirismo inocente, mas não deve mais constar no repertório carnavalesco. Quem não se lembra da letra? Indagada sobre a sua intensa tristeza, a moça responde que o motivo foi uma camélia que caiu do galho e morreu depois de dar dois suspiros. O emissor diz então à moça que não fique triste porque ela tem o mundo ao seu dispor e (prestem atenção agora!) é muito mais bonita do que a camélia que morreu. Ou seja, ele aceita alegremente a morte da flor, o que mostra pouco respeito pela Natureza (e, por extensão, pela ecologia).

E “Marcha da Cueca”? A letra é bastante conhecida. Alguém se diz disposto a matar quem roubou sua cueca para fazer pano de prato. Até aí nada grave. Pode-se interpretar o propósito homicida como uma hipérbole; o emissor estaria indignado com quem deu essa inusitada serventia a sua roupa íntima. O grave aparece depois, quando ele confessa que a cueca foi um presente que ganhou... da namorada. Namorada dar cueca de presente? Para fazer isso ela devia desaprovar as roupas de baixo que ele usava. E como conheceu essas roupas?! Essa música constitui um péssimo exemplo para os jovens que namoram com recato e decência.

          Fico por aqui a fim de não aborrecer o leitor. Minhas pesquisas, no entanto, vão continuar (a propósito, acabou de me ocorrer “Pirata da perna de pau”, que deve ser banida em respeito aos deficientes físicos). Aguardem novas contribuições, pois com um pouco de boa vontade (e espírito carnavalesco!) é possível considerar o politicamente correto como um baluarte contra as brigadas da intolerância e do preconceito. Ele ainda vai mudar este país.

            

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A folia de cada um

    

Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco – o que não é verdade. Brinco por dentro, com uma espécie de euforia espiritual. Pode parecer contraditório falar em espírito a propósito de uma festa que celebra a carne, mas a contradição é apenas aparente. O desejo é físico mas pode se sublimar, e nesse caso a alma se funde com o corpo.  Freud que o diga.  

         Carnavalescos como eu têm dificuldade de cair no samba, no passo ou no frevo. Gostam mais de olhar, imunes ao tumulto dos clubes e das ruas.  São diferentes dos que rejeitam o Carnaval com o argumento de que nessa ocasião o homem se animaliza. Animal ele nunca deixou de ser – um animal soterrado por séculos de civilização. A festa é o meio de deixar emergir a “fera” aprisionada. Ou isso, ou a neurose, a psicose e outros males a que o progresso nos conduz. É preciso vez por outra tirar a máscara de bons moços.   

         O carnavalesco enrustido compreende a necessidade de liberar o que há em nós de instintivo. Não só compreende como sente um pouco de inveja dos que fazem isso sem inibições, entregando-se sem reservas à alegria. O que ele tem não é moralismo, é pudor, cuja manifestação visível é a timidez. Ao perceber isso, os outros o provocam e às vezes o humilham.

Não adianta. Nada o faz balançar o corpo, nem mesmo os primeiros acordes de “Vassourinhas", que sempre me pareceu um dos maiores símbolos do Carnaval pelo seu poder de despertar as massas (nos clubes ou nas ruas, quando tudo ameaça se tornar monótono, esses acordes reacendem a animação). A tendência do enrustido é ver o Carnaval como nostalgia. Nostalgia do presente, pelo momento que escapa, e a óbvia nostalgia do passado, pela lembrança de outros Carnavais. Na sua imaginação, eles eram melhores do que os de hoje.

É como se naquele tempo não houvesse tanta agitação ou maldade e fosse possível brincar sem maiores riscos. As mulheres pareciam mais pudicas; e as músicas, cheias de um romantismo que convidava aos devaneios de um grande amor (mesmo que esse amor, como diz a letra da canção, desaparecesse com a fumaça). Para o nostálgico, que é parente do melancólico, tudo que se distancia da realidade é melhor.

         Crença ilusória. Os Carnavais do passado não são diferentes dos de agora. Cada época imprime à festa a sua marca, mas o significado profundo permanece o mesmo. Quando eu era menino, costumava ouvir relatos de mortes nos salões devido aos porres com lança-perfume; ou de agressões, provocadas por ciúme, que terminavam em assassinatos. Sob o aparente romantismo latejava a febre das grandes paixões, potencializadas pela música e as drogas.

        Vou assistir à festa pela televisão, de olho também nos problemas que o País e o mundo enfrentam. Espero que eles não tenham a força de inibir os que veem na festa a possibilidade de esquecer por uns dias a violência das nossas ruas e o eventual alastramento da guerra no Oriente Médio. Parece injusto “brincar” nesse contexto de conflagração urbana e luta pelo poder. Mas por isso mesmo é preciso se entregar aos apelos da música e da dança, nem que seja pela fria intermediação de um monitor de TV.            

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Para melhor agradecer

Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pedantismo e não deve substituir a forma clássica com que nos acostumamos a reconhecer um favor. “Gratidão”, de fato, soa um tanto pomposo. É como se, com a escolha do substantivo, o favorecido quisesse enfatizar o sentimento e não simplesmente mostrar que dele está imbuído.

       – Já que você não pôde ir para o almoço, vim aqui lhe trazer uns sanduíches.   

       – Gratidão.          

       Vejam que o beneficiário, ou beneficiária, não se limitou a mostrar-se agradecido(a). Evocou o que no ser humano é uma manifestação de grandeza de alma. Escolhendo o substantivo, leva o receptor a preencher todo um contexto elíptico (“Diante do favor que me fez, demonstro-lhe minha...”). Convenhamos em que isso torna o diálogo um tanto solene e pouco natural.   

       Risque-se então “Gratidão”, estou de acordo. Mas por que usar necessariamente “Obrigado”, e não “Grato?  Este é sintético, franco, e não sugere nenhum prévio compromisso da parte do favorecido.

        No “Obrigado”, como se sabe, o contemplado “se obriga” ao dever da retribuição. Confessa-se compelido a retribuir o favor mesmo que não esteja sendo sincero. Fala mais por um dever social do que por um impulso espontâneo, que traduza o reconhecimento pelo benefício recebido.

As coisas que fazemos por obrigação nem sempre são prazerosas. Quem já não ouviu de alguém a justificativa de que “fez porque foi obrigado”, ou seja, de que agiu de determinada maneira porque não tinha alternativa? Por que transferir essa possibilidade ao domínio das gentilezas e dos favores?

Se “me obrigo” diante de alguém, tenho-o como credor ou juiz – tipos sociais que não nos acostumamos a ver com simpatia. O primeiro nos cobra, o segundo nos julga, e ninguém se sente à vontade quando submetido a tais injunções. 

Sei que a sociedade se rege por obrigações de uns para com os outros. Mas não fica bem estendê-las ao domínio das reações espontâneas e afetuosas, como as que experimentamos diante de quem nos presta um favor ou concede uma graça. 

Não vou deixar de dizer “Obrigado”, que já é um clichê e cujo esvaziamento semântico vem se estendendo ao plano morfológico. Tanto é assim que o empregam tanto homens quanto mulheres (para desespero dos adeptos da linguagem neutra, que escolheriam “Obrigade”).

Mas confesso que prefiro mesmo “Grato”, que não comporta nenhum dever retributivo e tem o mesmo étimo de “Gratidão”. Além do mais, sendo um adjetivo, enfatiza o estado do beneficiário e não “a substanciosa” grandeza do sentimento. Sem falar que ganha da concorrente pela extensão. Os manuais de estilo, como se sabe, recomendam o uso de palavras curtas, e por esse critério o dissílabo “Grato” é preferível ao polissilábico “Obrigado”.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O desafio de manter o foco

 


Hoje se fala muito em manter o foco. São incontáveis os livros sobre o tema, que a meu ver implica basicamente dois tipos de atitude: ter em mente um objetivo e persistir até alcançá-lo. Muitos não sabem o que querem e se esforçam em vão. Outros até miram com clareza o alvo, mas não têm constância para chegar até ele.

O problema não atinge apenas pessoas comuns ou de mediana inteligência. Acomete também os gênios. Um caso famoso é o de Leonardo da Vinci, que costumava deixar os trabalhos pela metade (embora, segundo seus biógrafos, o motivo para isso fosse nobre: a sua imensa curiosidade por tudo). Outro caso é o de Jean-Paul Sartre; em texto que li há algum tempo, Wilson Martins criticava no filósofo existencialista, entre outras interrupções, o fato de não ter dado prosseguimento a “O ser e o nada”. Ele teria morrido devendo isso à humanidade.

Quem não completa o que começou fica sobretudo em débito consigo mesmo. E, pelo número de publicações que o problema vem suscitando, são muitas hoje as pessoas nessa situação. A cada manhã começam algo novo, mas o impulso para sequenciá-lo só vai até a noite. No dia seguinte, ao acordar, parecem ter perdido o fio que as conectava ao antigo propósito e têm que recomeçar do zero.

Não que esse pessoal queira se “reinventar” a cada dia. Esse verbo possui uma conotação positiva e se refere à capacidade, que poucos têm, de estar sempre renovando seus projetos. O recomeço a que me refiro consiste em reconectar os fios de uma deliberação que, por uma misteriosa química, a noite dispersou.

Isso não é nada fácil, pois depende de uma aliança entre vontade e predisposição inata. Ou seja, a genética interfere. Sabe-se que, se não comanda tudo, ela tem um peso que pode amargamente contrabalançar o empenho com que o indivíduo procura reencontrar o seu rumo.

A atenção que hoje se dá ao foco mostra que a dificuldade de estabelecer uma diretriz (intelectual ou existencial) está em boa medida ligada aos estímulos da vida moderna. Atualmente são muitos os apelos para seguir diferentes tendências de comportamento, grande parte deles potencializada pela instantaneidade da internet. Como se situar nessa avalanche de ideias que requisitam nossa atenção ao mesmo tempo que a despedaçam?

Os inúmeros apelos à dispersão fazem com que o desafio de manter o foco seja sobretudo interior. Mais do que ficar atento ao que se passa no mundo, o indivíduo deve voltar a atenção para si mesmo. Deve escolher em função de “quem é”, e não “ser” em função do que escolhe. Pois muitas vezes as escolhas, ao contrário do que diz o mestre do existencialismo citado linhas atrás, são determinadas por ilusões que a sociedade inculca no indivíduo para adequá-lo ao seu funcionamento.

Em tempo: o propósito desta crônica é um tanto terapêutico, pois também tenho dificuldade de manter o foco. Sei que, se me concentrasse suficientemente nas tarefas, produziria mais e talvez melhor. Já tentei menosprezar o problema fazendo uma frase: “Os gurus da autoajuda dizem que é preciso ter foco. Isso para mim não é problema; tenho vários.” Em seu humorístico nonsense, a frase pode ter ficado interessante – mas não afastou o abatimento que vez por outra a falta de constância nas metas provoca em mim.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O duplo

 

Mal coloca a primeira palavra no papel, ele ouve uma voz:
         – Finalmente você se decidiu...
         – Hein?! Se decidiu a quê?
         – A começar o texto, ora. Faz tempo que eu estou esperando.
         – Quem é você?
         – Sou o seu leitor. Vê se capricha para não me decepcionar.
         – O meu leitor? E o que está fazendo aqui? Espere pelo menos eu terminar. Sua hora vem depois.
         – Nada disso. Quero acompanhar o seu trabalho, talvez dar uma força. Afinal, você escreve para mim. Tenho todo o direito de lhe cobrar.
         – Cobrar?! Agora eu quero liberdade. Sua presença vai terminar me bloqueando. Dê o fora!
         – Dar o fora... Cuidado para não se arrepender do que está dizendo. Você pensa que significa alguma coisa sem mim?
         – Não seja pretensioso. Tenho liberdade para dizer o que quero, a quem quero e como quero.
         – Aí é que você se engana. Posso reduzir o que faz a uma insignificância. Posso estragar sua reputação e impedir que outros o leiam. E o pior: posso deixar você na mais completa solidão.
        – Como?
        – Ignorando os seus escritos. Deixando que fale sozinho.
        – Bem... sei que você tem esse poder, mas não é por isso que vou lhe aturar. E se me encher muito o saco, posso acabar dispensando-o. Escrevo para mim, e pronto.
        – Deixe de blefe! Você bem sabe que isso não é possível. Qual o sentido de escrever para si? Quem iria atestar o seu valor (caso você tenha)? Ou afagar a sua vaidade (que seguramente você tem)?
        – Todo homem tem direito à vaidade se o que faz é bom.
        – Mas quem decide sobre a qualidade do que ele faz? Ele próprio? Aí não seria vaidade, seria... delírio. Conheço muitos que vivem de fantasiar a própria glória; esses dão pena. Acho que você não é um deles.
        – Escute, essa conversa está me impedindo de escrever. Dê o fora e espere o texto ficar pronto. Aí você diz o que quiser.
        – Mais um blefe! Você está preocupadíssimo com o que eu possa dizer. Por que finge indiferença?
          – Não posso escrever enquanto você estiver por perto vigiando minhas palavras e avaliando se elas vão lhe agradar ou não. Isso é tirania.
          – Eu proponho que você me esqueça e faça o que tem que fazer.
          – Não faço, pronto! Desisti. Assim também deixo você frustrado. Não terá o que ler...
          – Para mim, tanto faz. Não vou mesmo perder muita coisa. Você está sem assunto.
          – Assuntos não faltam, ora!
          – Mentiroso. Está sem assunto, sim. E aposto como vai terminar, por falta do que dizer, contando esta conversa entre nós dois. Como se ela interessasse a alguém!

sábado, 6 de janeiro de 2024

Ano-Novo e reconciliação


As grandes datas têm sobretudo um valor simbólico. É o caso do Ano-Novo, que em essência não muda nada mas nos dá a impressão de que alguma coisa recomeça.

Todo ano a mais é um sinal de envelhecimento, mas insistimos em pensar que um novo tempo nasce à medida que outro morre. Em vez de sucessão, renovação. Na ingênua alegoria do nosso desejo, o Ano-Novo aparece como um bebê rechonchudo e risonho que vem substituir um velhinho magro e decrépito.

Ambos são imagens de nós mesmos. A segunda corresponde ao nosso eu real; a primeira, à fantasia com que julgamos renascer melhores, sem os velhos vícios e defeitos. A cada ano se renova o ciclo, com promessas que não são cumpridas e projetos que jamais viram realidade.

Precisamos dessas transições pomposas para nelas enquadrar nossos propósitos de mudança. Qual a graça em se deixar de fumar num dia qualquer? Faz mais efeito pensar que o abandono do cigarro vai ocorrer em um ano que se inicia. E que a partir do Ano-Novo nos transmutaremos num “novo homem”.

Assim como uns vão deixar o cigarro, outros prometem estudar com afinco para concursos. Ou mudar de profissão. Ou pedir finalmente a namorada em casamento. Mesmo que nada disso seja feito, este é o momento de sonhar “a sério” com a possibilidade.

As disposições mais comuns dizem respeito aos hábitos e ao caráter. Quem não promete a partir de agora se tornar mais generoso, humilde, disciplinadoQuem não vai moderar o egoísmo e desenvolver o senso de solidariedade? Quem não se tornará no próximo ano um ser humano melhor?

Para isso existe a data, e não adianta reagir com cinismo a tão sinceras deliberações. É preciso que vez por outra uma imagem ideal de nós mesmos ocupe o lugar do que somos. Essa ilusão de aperfeiçoamento e mudança nos anima a enfrentar o ano que vem. E, sobretudo, reconcilia-nos provisoriamente com nós mesmos. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Convite ao otimismo


            As expectativas não são nada boas para o ano que se inicia, mas lhe convido a ser otimista. Sei que não é fácil diante de tantas ameaças, como a do aquecimento global, mas até disso é possível tirar algum proveito.  O excesso de calor pode, por exemplo, fazer a garota que até então não lhe dava bola “se derreter” para o seu lado. Seria um ganho.  

É verdade que a polarização ideológica vai continuar afastando, inclusive, pessoas da mesma família, mas isso pode em alguma medida ser contornado se você evitar discutir política em ocasiões delicadas, como as refeições. Se não for possível, evite dizer em quem vai votar antes de terminar o almoço para não comprometer a digestão. Diga depois e abrace os que não concordam com você, a não ser que entre eles esteja aquele cunhado parrudo que gosta de fazer brincadeiras sem graça.  

Existem as guerras, é verdade, que não poupam nem a terra onde Cristo nasceu (acho que, se voltar ao mundo, ele vai escolher outro lugar). Vamos contudo torcer para que os litigantes deixem de matar mulheres e crianças; se for mesmo inevitável brigar, que se matem uns aos outros. Desse modo será possível contar com o fim dos conflitos por falta de mão de obra.   

Muitos temem uma hecatombe nucelar, mas tenho a impressão de que ela nunca vai ocorrer. Uma tragédia dessa dimensão acabaria com o mundo inteiro, ou seja, destruiria também os responsáveis pelas detonações, que obviamente não estariam dispostos a perder a vida. O que tem assegurado a permanência da nossa espécie na Terra, afinal de contas, é o velho e natural instinto de sobrevivência.  

Sei que é difícil manter o otimismo num mundo tão conflagrado, mas não custa tentar – mesmo porque não há outra saída. Como não se pode mudar a ordem (ou a desordem) das coisas, o melhor é se concentrar em metas individuais. Aqui vão algumas:

 - Acredite em você. Alguém, afinal, tem que fazer isso.

- Seja prudente, comendo apenas o essencial para satisfazer a sua gula. Lembre-se de que o excesso de calorias pode impedir que você corra de algum assaltante que queira lhe roubar o celular.

- Faça exercícios com moderação. Se na academia não houver alguém com esse nome, faça com outro instrutor mesmo.

- Seja educado no trânsito. Se alguém, por exemplo, lhe der uma “fechada”, não o agrida berrando que a mãe dele (ou dela) pratica a mais antiga das profissões. Opte por lhe destinar silenciosamente “uma banana” e siga em frente.

- Não queira ter um monte de seguidores nas redes sociais. Contente-se com os que possam alcançá-lo.

-  Evite a frequência no uso do celular. Caso a redução lhe provoque crise de abstinência, consulte o Google para saber o que fazer. Você pode lançar mão desse expediente várias vezes por dia.

- Desconfie da Inteligência Artificial, pois muitas vezes ela mistura os dados e pode deixá-lo mais “burro” (entre aspas, para não ofender o animal) do que você já é.

          - Procure viajar, conhecer outros lugares. Eles em essência não são diferentes do seu lugar de origem, mas você levará algum tempo para perceber isso e nesse intervalo poderá sonhar.

Visita de aniversário