quarta-feira, 24 de março de 2021

Uma dúvida socrática


          Sócrates é considerado o pai da filosofia. O seu reconhecimento de que criamos os deuses em vez de sermos criados por eles constituiu um golpe fatal no universo dos mitos. A partir daí, ficou mais fácil para o ser humano guiar-se pela razão.

        Mas Sócrates também ficou famoso por afirmar: “Só sei que nada sei.” Como alguém capaz de percepções tão certeiras sobre a mente humana poderia “nada saber”? Qual era a intenção do filósofo ao dizer isso?

        Certamente era mostrar que a condição básica para o conhecimento é se despojar das falsas certezas e desconfiar das verdades estabelecidas. Para pensar por si mesmo é preciso “partir do nada”, construir o próprio saber e, com ele, a própria visão de mundo. Isso não significa desconhecer a tradição; significa posicionar-se livremente quanto a ela.

        Os homens se distinguem pelos graus de verdade que podem suportar. As ilusões estão ao alcance de todos; a verdade, só de alguns. Cada um deve ter a liberdade e a coragem de construir a sua.

domingo, 7 de março de 2021

Mudança de curso

Ainda não sei por que me dispus a cursar Medicina. Filho e sobrinho de professores, sempre estive ligado ao magistério. Comecei dando aulas particulares de Português na casa dos alunos. Com isso juntei um dinheirinho, que me permitiu dispensar a mesada do “velho” e comprar meu primeiro carro – um Fusca usado. Fiquei exultante, pois com ele era mais fácil arranjar namoradas.  

A etapa seguinte foram os cursinhos pré-vestibulares, nos quais passei a atuar aos 22 anos. Nesse tempo eu lia muito, ensinava outro tanto e fazia o Científico no velho Liceu Paraibano. Não quis fazer o Clássico, pois nele não poderia estudar matérias como Química, Física ou Biologia – essenciais para o vestibular de Medicina. Não me sentia vocacionado, mas esse era o curso que todos faziam (os outros eram Engenharia e Direito). Envolvido com as aulas nos cursinhos, e preferindo ler autores literários a estudar os compêndios da escola, preparei-me mal para o vestibular. O resultado não poderia ser outro: uma retumbante reprovação.   

Aqui é preciso dar um corte e voltar aos idos de 1970. Um carro segue pela estrada que liga Campina Grande a João Pessoa. É noite. No automóvel estão dois homens colados ao radinho do veículo. São meu pai e meu tio, que esperam a divulgação dos resultados do vestibular da UFPB. De repente o repórter começa a ler a relação dos que passaram (hoje, com a internet, poucos têm ideia da tensão que isso representava). Vai lendo, lendo, e nada de aparecer meu nome. Quando a leitura chega ao fim, meu tio (que era padre) recrimina meu pai por não ter me matriculado num cursinho. Ele atribuía o fracasso a essa omissão paterna (de forma injusta, como se viu) e assume ali um compromisso: “Eu vou pagar o cursinho dele.”

Isso mudou tudo. Eu tinha por esse tio, além do afeto, um respeito por assim dizer eclesial. Se ele ia pagar meu cursinho, eu estava moralmente comprometido e não poderia decepcioná-lo. A consciência desse dever me transformou. Incutiu-me a responsabilidade de estudar, compensando o desleixo de anos anteriores. Depois de matriculado, fiz um programa de estudos e a ele me devotei com uma tirânica disciplina. Lembro-me de que não faltei a uma aula sequer. O resultado não poderia ser outro: fiquei em 7º lugar no vestibular geral (que englobava os cursos da área de Saúde) e em 23º na seleção específica para Medicina. Um feito para quem no ano anterior tinha sido reprovado.

Os primeiros anos de curso foram tranquilos, pois não exigiam muito. Era possível conciliá-los com as aulas de Português (eu não me desligara das atividades nos cursinhos). Matérias como Anatomia, Histologia ou Fisiologia pouco sugeriam a vivência de um futuro profissional da área médica. A situação mudou quando passei a cursar disciplinas que demandavam a ida aos hospitais (Semiologia, Técnica Cirúrgica, Clínica Médica e outras).

Dizem, com razão, que o aprendizado da Medicina se faz no contato com os doentes. É preciso estar diuturnamente junto aos leitos. Quem não se ajusta a essa rotina não tem vocação e deve abandonar o barco (antes que nele se afundem o pretenso médico e algum moribundo que tenha o azar de lhe cair nas mãos). Comecei a me compenetrar dessa verdade quando, no Hospital Santa Isabel, me vi incumbido de fazer anamneses e auscultas. Logo fui vendo que não eram aqueles sinais que eu nascera para interpretar. Preferia outros – menos tangíveis, porém mais afeitos à minha inteligência e, sobretudo, à minha sensibilidade.

Com o tempo, a crise foi se aprofundando. Era cada vez menor a vontade de ir ao hospital, mas eu continuava a fazer isso para não decepcionar a família (sobretudo meu pai, que me queria médico). Respirava quando saía dali para, ainda vestindo branco, adentrar a sala de aula e ministrar o pouco que sabia sobre língua portuguesa e literatura. Aguentei o quanto pude, até que um dia veio a bomba.

Não sei bem sei se essa é a metáfora, mas uso-a para figurar os disparos cardíacos ocorridos naquele dia. Lembro-me de que senti uma sensação estranha, um esvaimento parecido com o que antecede a morte – se não fosse a própria morte. Disse-me um colega que fiquei muito pálido e lhe pedi que medisse a minha pulsação: 140 batimentos por minuto. O assunto da aula era choque, e me lembro de ter ouvido o professor dizer: “Choque é má perfusão sanguínea”. Curiosamente, essa definição se enquadrava no que eu sentia. Faltava-me o sangue, e o coração parecia que ia parar. Encurtando a história: saí disparado da sala e ao hospital nunca mais voltei. Conforme me foi explicado depois, eu tinha sofrido um processo de somatização.  Resistira o quanto pudera, fazendo o curso a contragosto, até que meu organismo reagiu jogando no sangue adrenalina, cortisona e outras deletérias substâncias.

Quando cheguei em casa, comuniquei à família a minha resolução. Iria deixar o curso de Medicina naquele dia e me transferir para o de Letras. Olharam-me com alguma perplexidade, mas, curiosamente, o menos surpreso era o meu pai. Depois ele me confessou que não tinha dúvida de que essa mudança ia ocorrer. Sabia das propensões do filho, a quem ele (também professor de Português) muitas vezes transferira a clientela que o procurava.  

Trocar Medicina por Letras, ainda mais tendo iniciado o quarto ano, parecia àquela época uma prova de insensatez. Ouvi de colegas comentários do tipo: “Só faltam dois anos para terminar. Você vai morrer de fome.” Ou: “Letras é curso de moça.” Bem, de fome não morri. E quanto à minha orientação sexual, garanto que não sofreu nenhum abalo.   

          Vez por outra conto essa história a alunos meus que estão na encruzilhada do vestibular. Muitos sofrem com dúvidas sobre o curso que devem escolher, e acho que o meu testemunho pode ajudá-los. Encorajo-os a sondar honestamente o seu interior e seguir a vocação. Dentro de cada um de nós existe uma vozinha que chama (“vocação” vem de “vocare”, quer dizer chamar), conclamando-nos a não desprezar nossas aptidões. Se somos o que fazemos, fazer aquilo para o qual nascemos nos legitima como seres humanos. 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O complô

 

Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que estavam reunidos uns tipos estranhos – umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

Amigos, eu aqui sou a cabeçaou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois cabe somente a ele a glória. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

– As figuras, unidas, jamais seremos vencidas... – entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

         – Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

– Mas que arrogância! – objetou Metáfora. – Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” é metáfora. como sou mesmo importante?

Metonímia não se deu por rendida:

– O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

– Mas sabe por que aconteceu isso com ela? – insistiu Metáfora. – Porque se deixou usar demais. Agora não impressiona nem comove. E será esse o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra – e apontou desdenhosamente Gramática, que a tudo assistia, impassível, num recanto da sala.

A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora (o que fez Ironia, com um sorriso maroto, sublinhar a calma que havia no ambiente). Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. se atribuía a ele o mérito pelos textos que escrevia, mas de onde vinham o vigor e a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

Cada uma quis então externar o seu ressentimento. Hipérbato foi o primeiro a falar: “De tal exploração cansei!”. Essa queixa só exacerbou o ânimo de Hipérbole: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era muito honestoopinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também...” – mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele” – e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali em diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática.  “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” – enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia murmurava para si, amedrontada: “Ih!... Sinto cheiro de barulho.”.

Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas – umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras que pareciam ao Escritor a morte da invenção e da ousadia.

– Seja o que for que vocês queiram, eu cedo – acabou por dizer. – De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte – seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: – De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve; nenhuma de vocês funciona – assim como um corpo não existe sem desejo e sem alma.

            Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Demissão exemplar

 

            Donaldo Trump apresentou durante vários anos o programa “O aprendiz” na NBC americana. Nele o ex-presidente avaliava candidatos que pretendiam vencer no mundo corporativo, medindo-lhes atributos como ousadia, planejamento, espírito empreendedor. Caso o candidato se mostrasse inapto em um desses quesitos, receberia do apresentador uma sentença que acabou virando um bordão: “Você está demitido!”.

        Há alguns dias a América demitiu Trump. O povo americano derrotou-o em eleições limpas e, tudo indica, pode impedi-lo de se candidatar em próximos pleitos. O que deu errado na estratégia do guru empresarial que, na gerência do governo americano, não foi capaz de revelar alguns dos atributos que costumava cobrar de outras pessoas?

        Li que a maior influência na formação do ex-presidente veio do seu pai. O velho detestava perder e inculcava esse temor nos filhos. Queria que cada um deles fosse um “matador” – metáfora que sugere a disposição feroz e inclemente de vencer mesmo ao custo de destruir os adversários.

         A lição paterna frutificou no menino Trump, que passou a cultivar a obsessão do triunfo a qualquer preço e custo. Essa mentalidade até pode funcionar no mundo corporativo, onde eventuais rasteiras nos adversários ficam circunscritas aos limites das empresas. Mas é extremamente arriscada no universo político, que exige de seus atores um amplo compromisso com a coletividade. Para medir a prática desse compromisso existe a imprensa, que tende a esquadrinhar com um faro de pitbull faminto o comportamento dos eleitos.

        A derrota de Trump não deixa de representar uma lição. Mostra que a luta pelo poder não é um vale-tudo no qual a mentira, o cinismo e a arrogância vigoram impunemente. O presidente derrotado sustentou até onde pôde a mentira de que houvera fraude nas apurações. Ou melhor, até onde ficou claro o objetivo dessa inverdade: incutir nos aliados uma indignação que os levasse a um protesto radical, como foi a invasão do Capitólio. Cego para permanecer no poder, Trump não percebeu o risco e a gravidade de tal sublevação, da qual resultaram tiros, depredações e mortes.

         Fala-se agora que, voltando aos negócios, ele deve investir num canal de TV. Ou comandar uma nova versão de “O aprendiz”, desta vez acoplando o programa ao seu propósito de voltar à Casa Branca em 2024. Essa possibilidade não deixa de ser irônica. Com que credibilidade ele vai dar conselhos às pessoas sobre como serem profissionais vitoriosos? Isso implicaria preparar também para a derrota, o que o ex-presidente mostrou que não sabe fazer. Ele perdeu feio e mal, possivelmente sepultando uma carreira que poderia ter continuidade caso o fracasso fosse encarado como um acidente de percurso. A empáfia e a cega obstinação pela vitória não o permitiram enxergar isso.

          O ex-presidente se mostrou pouco resiliente  (para citar um conceito caro aos gurus da autoajuda) e destituído de visão estratégica. Além disso, por arrogância e arrivismo, não hesitou em atropelar princípios éticos e valores tradicionalmente caros ao povo americano – como a democracia. Essa mistura de ambição e desrespeito acabou transformando-o num “matador”, sim, mas de si mesmo.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Um brinde aos sobreviventes


                Sempre que vai um ano e vem outro, é comum refletir sobre o que se viveu e fazer planos para o futuro. O tempo, afinal, existe para isto: levar-nos a esquecer as frustrações pelo que não deu certo e nos estimular a fazer novos planos.  Não há dúvida de que no atual momento, com o vírus circulando por aí, as metas vão encolher bastante. Como projetar viagens não sabendo se será possível realizá-las? Como programar festas, de aniversário ou do que for, se os epidemiologistas continuamente nos alertam sobre o risco das aglomerações?

        A luta contra a pandemia está sendo difícil porque nem todos estão interessados em colaborar. Se estivessem, abdicariam um pouco dos próprios interesses em benefício do bem comum. Por que não fazem isso? Talvez por se acharem “imortais”, ou pensarem que estatisticamente têm poucas probabilidades de ser acometidos pela doença. Como se ela só atingisse os outros... É o velho egoísmo triunfando sobre as nossas ralas propensões altruístas.  

      2021 vai ser o ano da vacina. Ou das vacinas, pois haverá muitas, com diferentes níveis de eficiência para as distintas faixas da população. O vírus não se extinguirá sem que em nosso organismo proliferem os anticorpos capazes de devorá-los. Curiosamente, ainda assim há quem se oponha a esse inestimável recurso da ciência – por ignorância, birra ou (o que parece mais comum) posicionamento ideológico. Chega-se ao ponto de desejar o fracasso de quem se empenhe em importar um tipo de vacina que tenha mais eficácia na cura da doença.

        O réveillon é também sinônimo de Carnaval, mas fica difícil antecipar uma folia que não vai se prolongar em fevereiro. Principalmente se a gente se lembrar de que, no período carnavalesco passado, foi o vírus quem fez a festa. A tendência (pelo menos para os prudentes) é ficar em casa abraçando os parentes próximos, com os quais se tem a certeza de não correr riscos. Haverá em tudo isso algo de sombrio, claro. É grave e penoso meditar sobre o tempo quando paira no horizonte a ameaça de um vírus letal. Ele é uma sombra que só irá se desfazer quando a vacina começar a produzir os seus efeitos.

        A vida é um processo de ajustamento contínuo às circunstâncias. Chegamos aonde chegamos na escala evolucionária devido à nossa ilimitada capacidade de adaptação. O ser humano se adapta a tudo, pois o instinto de conservação o impulsiona a ir em frente. Mas “ir em frente” não significa necessariamente evoluir. Pode significar, como no atual momento, apenas sobreviver. À meia-noite do dia 31, brindaremos sobretudo à nossa sobrevivência num ano em que tantos se foram.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Que mistério tem Clarice?


           Uma pausa, leitor. Hoje não se fala de pacote, de violência ou de praia suja. Estes são assuntos urgentes e práticos, que antes nos demandam ação do que reflexão. E o mundo não se conserta mesmo. Vamos dar um tempo a essa agitação frívola, nociva tanto ao corpo quanto à alma, e conversar com alguém muito especial. E ouvir coisas certamente profundas sobre os mistérios da  vida e do ser.

Isso te assusta e agride? Deixa de ser tolo. A vida é cheia de mistério e não é por negá-lo, querendo em tudo o raso e o chão, que ele se arredará de ti. Não vires a página; fica. E vamos conversar com Clarice Lispector. Foi numa tarde de domingo que ela visitou o meu escritório. Nessa ocasião, como sabes, algumas pessoas estão na igreja, outras nos bares, outras apenas sozinhas - esperando que o domingo passe. Clarice veio sem manto e sem luz, com a humildade dos verdadeiros santos. E eu fui, como quem não queria nada e em verdade querendo tudo, lhe fazendo as perguntas:

P- Se tivesse de escolher entre a literatura e a maternidade, o que você escolheria?

R- (...) eu desistiria da literatura. Não tem dúvida que como mãe sou mais importante do que como escritora.   

P- A mãe deve seguir alguma diretriz especial?

R- À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.

P- Qual a sua mais remota lembrança ou impressão desta vida?

R- Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo sentia que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 

P- E da outra vida, há alguma remota lembrança ou impressão?

R- Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.

P- Lendo os seus livros, a gente percebe que não apenas os seres humanos - também os bichos lhe impressionam.

R- (...) sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo (...); e como uma das formas acessíveis de gente. 

P- Qualquer maneira de chorar vale a pena?

R - Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem.

P- Você se considera uma pessoa ordenada?

R- (...) as pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes sirva de segurança.

P- Escrever lhe é substancialmente necessário?

R- Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade.

P- O escritor tem que estudar para escrever?

R- (...) para escrever, o único estudo é mesmo escrever.

P- Que pedido você faria ao linotipista que compõe os seus textos?

R- (...) não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

P- Hoje é domingo, Clarice, e nem eu nem você estamos na igreja. Você acredita em Deus?

R- Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. (...) Deus tem que vir a mim, já que não tenho ido a ele.

(Em “A rosa fenecida”, Ideia, 2002)  

domingo, 13 de setembro de 2020

A vacina e seus riscos


                                          (Leia se você pretende se vacinar!) 

            A suspensão dos testes com a vacina de Oxford contra a Covid-19 foi um alerta. Deve-se ficar atento a outros possíveis efeitos colaterais. O assunto me preocupou tanto, que tratei de pesquisá-lo. Seguem as minhas conclusões, que sem dúvida prestarão um grande serviço à coletividade.

A vacina aumenta o nível de glicose no sangue das pessoas que costumam comer muito doce. Há referência a um caso de hiperglicemia numa mulher que, na véspera de se vacinar, comeu sozinha uma barra de chocolate e um pote de cocadas.

A vacina também eleva os batimentos cardíacos dos indivíduos que ficam muito tensos no momento da aplicação. Por isso ela deve ser ministrada com prudência nos cardíacos e nas pessoas com pressão alta. No intuito de se livrar de uma enfermidade, elas podem acabar morrendo de outra.

Outro efeito observado foi um intenso lacrimejamento num homem que resolveu tomar a dose ao ar livre, mais especificamente junto a um terreno empoeirado em que ventava muito. Mal a enfermeira injetou o líquido (o que coincidiu com uma rajada mais forte de vento), os olhos do homem se avermelharam e começaram a lacrimejar.  

Certo instituto holandês (que pretendia abafar o caso) observou um desagradável efeito colateral. Trata-se do aumento de gases e flatulência num indivíduo que, dois dias antes de se vacinar, comeu três ovos com duas batatas-doces. A vantagem foi que esse tipo de reação obrigou as pessoas da família a usar máscaras dentro de casa. A esposa do sujeito chegou a colocar simultaneamente três e, flagrada pela reportagem de uma emissora de TV, acabou se convertendo num símbolo de adesão às medidas protetivas.  

Para tornar a pesquisa mais completa, fui a periódicos científicos. No rodapé de um artigo publicado pela revista “O Laçarote” (versão brasileira da britânica “The Lancet”), fiquei sabendo que a vacina produz taquicardia e dispneia em pessoas que tendem a entrar em pânico quando se deparam com uma agulha de injeção.

Agora uma informação que deve refrear o entusiasmo dos que depositam esperanças na vacina russa: parte dos voluntários desistiu de tomá-la com medo de ser envenenada. Não adiantou os médicos explicarem que só corriam esse risco os opositores do governo; os apoiadores possuíam um antídoto natural. Esse impasse fez com que se interrompessem as pesquisas e se começasse a recrutar voluntários em outros países. Parece que o Brasil está entre as opções.   

Um curioso efeito colateral me foi revelado por Cruzeta Fernandes, uma infectologista que pediu para não ser identificada. Segundo ela, a vacina produz enervamento e comichões nas pessoas que, para tomá-la, precisam enfrentar longas filas. Os médicos haviam chegado a essa conclusão com base no caso de uma mulher que, depois de esperar cerca de quatro horas, arrebatou a seringa e espetou a agulha no braço da residente médica que ia fazer a aplicação. Vacinada sem querer, e ainda não confiando na eficiência do produto, a residente entrou num grave quadro depressivo e teve que ser recolhida a um hospital psiquiátrico.

Como veem, são muitos os riscos. Talvez o mais sensato seja seguir a orientação do Presidente e não se vacinar. Ninguém sabe que outras terríveis consequências podem advir aos que, contra o apelo do nosso mandatário maior, prefiram seguir as orientações da Ciência.

Visita de aniversário