terça-feira, 13 de setembro de 2022

Andarilho urbano


           Já fui um adepto da corrida. Comprei o livro de Kenneth Cooper e o li com aplicação, procurando seguir seus conselhos para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e ganhar mais anos de vida. Costumava acordar cedo para trotar cinco ou mais quilômetros na calçadinha da praia. Quando cursava pós-graduação no Rio participei da corrida Leblon-Leme e não fiz feio, embora terminasse o percurso esbofado como um touro de arena antes do golpe fatal.

A corrida se tornou para mim uma espécie de vício; era impossível abdicar do prazer propiciado pela endorfina, que chamei num texto de “vinho do suor” (nesse tempo eu queria ser um literato e achava que só chegaria a isso se produzisse imagens esdrúxulas). Com o tempo, fui aumentando a frequência das corridas e estendendo o trajeto. Os joelhos se ressentiram do excesso. Certa manhã, depois de um exercício mais puxado, senti uma dor violenta no joelho esquerdo e tive que parar. Voltei para casa mancando e tratei de procurar um médico, que foi curto no diagnóstico: lesão meniscal. Passei por fisioterapia e infiltração, mas o que resolveu mesmo foi a mesa cirúrgica.  

Após essa traumática experiência, deixei a corrida e passei a caminhar. Com o tempo fui me dando conta dos benefícios dessa prática mais modesta, que exercita o copo e ao memo tempo o poupa dos excessos. O próprio Cooper, num dos seus últimos livros, desencoraja as corridas e aconselha que se caminhe. Tenho confirmado a sabedoria desse conselho. No ato de caminhar é menor a preocupação com o desempenho, o que libera a mente para reflexões ou simples devaneios. Daí ele ser frequente em filósofos e escritores.   

Rousseau, por exemplo, costumava fazer longas caminhadas. Durante elas amadurecia as ideias que iria incorporar ao seu sistema filosófico – ideias sobre a natureza humana, que ele considerava a priori boa, e a importância da educação para ajustar o homem à sociedade. Montaigne também percorria longos trajetos antes de se enfurnar na sua torre e escrever os Ensaios. Machado de Assis, geralmente acompanhado por Dona Carolina, preferia um passeio pelas calçadas do Cosme Velho após o jantar.

As caminhadas não precisam ocorrer na praia ou em algum local ermo. Podem acontecer mesmo no burburinho da cidade, entre gente apressada e automóveis pestilentos. Nesse caso pode-se nadar (ou melhor, andar) contra a corrente, sem pressa, flanando. Foi Walter Benjamin quem chamou a atenção para o flâneur; a partir de escritos baudelairianos, ele cunhou esse termo para designar o misto de andarilho e observador que vaga pelas grandes cidades.  

Flanar é andar a esmo. É poetar com os pés. É ser um peregrino sem promessas, a não ser a de voltar ao ponto de partida depois de distrair o espírito com a gratuidade do percurso. Quem flana se liberta por um tempo de deveres e obrigações. Vai por ir, e não para cumprir um roteiro com uma meta específica. A mente também vagueia, deixando que os pensamentos fluam sem aparente conexão. Uma ideia puxa outra ao sabor do inconsciente, uma imagem desencadeia outra estimulada pelo que é visto ao longo do percurso. 

Seguir por uma rua que a gente costumava percorrer desperta recordações que alegram ou entristecem. Outro dia, num dos meus passeios, deparei-me com uma casa onde moravam umas garotas que atraíam os meninos do bairro. Eram três, uma mais loura e espevitada do que as outras. A casa tem agora paredes enegrecidas, parte do reboco desfeita e mato crescendo onde antes foi o jardim. Como estariam os que nela moravam? Voltei para casa num vagar melancólico que me fez meditar sobre a inclemente passagem do tempo. Coisa de flâneur.


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Croquis (3)


                                                        1

As palavras têm significados. Escrever bem é juntá-las da melhor maneira para que tenham um sentido. Como não há palavras neutras, o mau emprego ou o excesso delas pode arruinar esse propósito. Daí a necessidade de suprimir as que não funcionam, cortá-las sem clemência, a fim de não comprometer o valor das que contam. O texto é como um jardim; quanto mais se poda, melhor floresce.   

                                                      2         

             O corpo pode ser tanto objeto de enlevo e prazer sexual quanto instrumento de ofensa e agressão. Cheiros, orifícios, excrementos podem servir de referências grosseiras para depreciar os outros. Nesse caso o corpo anatômico triunfa sobre o corpo erótico ou pulsional. A isso corresponde o vocabulário dito chulo (pornográfico), que mostra sem disfarces o lado feio da nossa anatomia.

                                                      3

            A devoção conforta independentemente do objeto a que se destina. Subtrai-nos à gratuidade, que sempre é motivo de inquietação. A entrega a uma crença, um projeto, uma pessoa dá-nos a sensação de que possuímos a nós mesmos. Peregrino da liberdade, o homem parece que só se tranquiliza quando a ela renuncia. Mas é preciso escolher bem em prol de quê fará isso.

                                                 4

O humor comporta alguma dose de sadismo (ri-se de algo ou de alguém). Mas é um sadismo benigno, que aponta falhas e desproporções para corrigi-las, e não para satisfazer a perversão. O sádico inflige dor a outrem visando unicamente ao próprio prazer. O humorista quer que os outros riam.

                                                 5

           No jogo da vida, chega o dia em que o “tempo regulamentar” esgota e ficamos... por conta do juiz. Só nos resta torcer para que ele vá esquecendo o apito.

                                                 6                               

Os livros que nos marcaram são por nós continuamente reinterpretados. Não precisamos relê-los para lhes atribuir novos sentidos. À medida que deles nos distanciamos no tempo, mais os sentimos próximos. A maturidade nos faz descobrir o que não tínhamos percebido em leituras anteriores. Os bons livros são sementes que em nós se multiplicam e nos fazem crescer.

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Falar dos outros é catártico. Quando fazemos isso, nos compensamos do que não conseguimos fazer (e ser). Alguém já se referiu à utilidade psicológica da fofoca, que nem sempre é verdadeira (mas se for, melhor). A fofoca mostra que o ser humano vive em competição com os outros. Saber de um traço negativo alheio traz-lhe uma obscura sensação de triunfo.

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           Vejo amigos se ressentindo de serem pouco ou nada lidos por seus colegas escritores. O problema é que hoje muitos escrevem, e o tempo é curto para ler tanta gente. Além disso, quem escreve está mais interessado em ser lido do que em ler. Ainda assim, é preciso (e inevitável) escrever. Mesmo que a recepção, o mais das vezes, se transforme em decepção.

                                                 9

             Se muitos pensam, poucos dominam. É claro, então, que a disseminação do pensar não interessa aos dominadores. O pensamento é por excelência o exercício da liberdade. Foi graças a ele que o ser humano passou a conhecer, e eventualmente dominar, os mecanismos da Natureza. Diante disso, não surpreende que os que pretendem se perpetuar no poder desprezem as práticas e instituições que aprimoram no ser humano a capacidade de refletir. O que dá a medida de um governo democrático é o quanto ele investe em ciência, cultura e educação. Quanto mais burro o povo, mais ele se presta ao cabresto e menos protesta contra os que querem lhe montar no lombo.

                                             10

        O ateu afirma Deus na medida em que, negando-o, exerce o direito à liberdade que lhe foi conferido pelo Criador. A grandeza do ser humano não se mede pela crença cega numa divindade, mas sim por quanto essa crença o faz valorizar o próprio homem. Fora do humanismo não há salvação. 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

110 anos do "Eu", de Augusto dos Anjos


- Entrevista a Luana Lacerda, do Jornal da Paraíba -

  

 1. Augusto dos Anjos se encaixa como simbolista, parnasiano ou pré-modernista?

 R. Augusto começou simbolista, como um epígono de Cruz e Sousa. Chegou a produzir poemas no estilo e no espírito do Simbolismo, em que prevalece a estética da sugestão, mas depois viria a negar essas composições. O contato com autores como Cesário Verde e Baudelaire, potencializado pela experiência na Faculdade de Direito do Recife, levou-o a buscar um molde menos fluido e mais áspero para traduzir os conflitos humanos. Sua dicção passou do tom rarefeito e místico presente nos simbolistas a um realismo (por vezes expressionista) que já era então uma marca da modernidade. Daí ele ser classificado nos manuais de literatura como pré-modernista.

2. Você coordenou um grupo sobre Literatura e Psicanálise enquanto era professor da UFPB. Você poderia falar um pouco sobre a relação da poesia de Augusto dos Anjos com a psicanálise?

R.: Utilizei subsídios da teoria psicanalítica n´O evangelho da podridão, a minha tese sobre Augusto dos Anjos, defendida em dezembro de 1992 na UFRJ. Como eu abordava a melancolia no poeta paraibano, procurei textos de Freud, Lacan, Julia Kristeva e outros teóricos que trataram do tema. Chama a atenção no Eu a culpa manifestada pelo eu lírico – uma culpa atávica, ligada a uma primeira transgressão do homem e correspondente no cristianismo ao “pecado original”. A culpa, segundo o criador da psicanálise, é um dos componentes essenciais da melancolia, e estudá-la com base em subsídios psicanalíticos me ajudou a interpretar as imagens e avaliar os demais procedimentos retóricos presentes na obra do paraibano.          

3. Considerado o paraibano do século, qual a importância de Augusto dos Anjos para a Paraíba?

R.: A importância é enorme, claro. A própria atribuição de “Paraibano do Século” após uma consulta popular, na qual constava o nome de renomados políticos e de outros escritores de peso, demonstra o reconhecimento que a Paraíba lhe tributa. Isso não teria ocorrido se o poeta não concorresse para divulgar a imagem do estado, chamando a atenção do Brasil para aspectos da nossa história e da nossa geografia. E, sobretudo, despertando o interesse pelo espaço onde brotou uma voz poética tão original.    

4. Você conhece a trajetória pessoal do poeta? Onde estudou, grandes situações que marcaram sua vida… de uma forma geral, o que se sabe sobre ele? Há algo que o marcou ao ponto de tornar-se poeta?

R.: Há dois grandes livros sobre a vida dele: o de Humberto Nóbrega e o de Raimundo Magalhães Júnior. Nessas obras é possível encontrar aspectos importantes da sua biografia, marcada pela decadência do engenho da família e pelas primeiras experiências no magistério da capital. Costuma-se vincular o pessimismo do poeta a vivências dolorosas no engenho Pau d’Arco, como a morte da irmã Francisca e da agregada Amélia, que teria despertado em Augusto uma paixão e por isso foi punida pela mãe dele, Sinhá Mocinha. Há quem busque apontar a influência de eventos como esses na obra, o que me parece errado e, sobretudo, pouco produtivo do ponto de vista literário. Há no Eu um drama que vai além da dimensão pessoal (embora, obviamente, de algum modo a reflita).       

5. A Paraíba conhece a poesia de Augusto dos Anjos? Ele é estudado nas escolas do estado?

R.: A Paraíba o ama e admira, mas não acho que tenha um verdadeiro conhecimento da obra. O grosso dos leitores é mais sensível a aspectos de superfície, como o vocabulário esdrúxulo –  advindo em boa parte da ciência e da filosofia que o poeta absorveu na Faculdade de Direito do Recife – e a musicalidade áspera, dissonante, que impressiona a uma primeira leitura ou audição (Augusto é sobretudo um poeta para ser ouvido). Não sei se há nas escolas do estado projetos que tratem especificamente da sua poesia.    

6. Augusto dos Anjos é um poeta mórbido?

R.: Falar em “poeta mórbido” é vincular a morbidez ao universo poético. Nesse sentido ele é mórbido, sim. Existe, a propósito, muita confusão entre a doença como componente da sua poesia e como designação de um quadro pessoal. Na economia do Eu, “a doença” designa a situação do homem como transgressor; é, como escrevo na minha tese, uma metáfora orgânica para figurar a corrupção do ser humano pelo pecado, a transgressão primeira, a Falta. O poema “Os Doentes” mostra isso com clareza. Não tem sentido, por exemplo, ver o poeta como tuberculoso, conforme já ouvi muito falar; chegam até a dar a tuberculose como causa da sua morte, quando ele na verdade morreu de pneumonia. A “população doente do peito” que “tossia sem remédio na (sua) alma”, conforme está em “As cismas do destino”, era “a expectoração pútrida e crassa/ dos brônquios pulmonares de uma raça/ que violou as leis da Natureza”. Já se apontou com muita pertinência que o eu lírico de Augusto dos Anjos é na verdade um Nós. Em seu lamento ecoam o nosso desespero e a nossa perplexidade em face de uma época na qual a ciência põe em xeque as certezas religiosas e obriga o homem a erigir por conta própria uma nova grade de valores morais.

 

 


 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Apelo junino

       Ei, vamos dançar de novo aquela quadrilha? Prometo que agora não vou lhe decepcionar. Da primeira vez me comportei mesmo como um matuto, deixando você sozinha no salão. De nada adiantou o cachimbo, o cornimboque e o bigode com que me adornaram para parecer um cabra da peste. Tudo aquilo era postiço; verdadeiro mesmo só a minha timidez. Agora prometo levar a dança até o fim, mesmo que ainda não tenha muito jeito. Ou jeito nenhum.    

         Venha, estou lhe dando a minha palavra. Não a palavra daquele rapazinho que um dia fugiu de você, mas a do adulto que aprendeu um pouco a reconhecer seus erros.  Um deles foi ter feito você chorar. Ou não chorou? Se não, como explicar a maquiagem desfeita? Percebi a pequena trilha d’água perfurando o excesso de preto e ruge com que tentaram afogar sua beleza. Besuntaram muito, mas esse exagero não desfigurou o rostinho meigo de onde brotava um sorriso cujos reflexos ainda hoje iluminam a minha vida.  

      Se você vier agora, prometo que não vou fugir para o pátio vizinho ao salão a fim de contemplar os fogos que explodiam na noite. Eu procurava me distrair com as luzes e a fumaça que emanava das fogueiras, e vez por outra notava um balão que se perdia no escuro (naquele tempo, eles eram permitidos). Queria estar num deles, voar para bem longe e afogar nas sombras a lembrança do que acabara de ocorrer. O barulho da festa, com as pessoas rindo, dançando e falando alto, contrastava com o meu silêncio desolado. Deveria ter voltado ao salão e pedido desculpas, mas em vez disso fiquei por ali ruminando o meu fracasso.

       Bem que poderíamos tentar outra vez. Você deve estar se perguntando: mas como? onde? Sei que aquele vestidinho colorido de chita não cabe mais em você – nem a pulseira, nem o colar. Mas você deve ter guardado pelo menos o broche vermelho raiado de branco que estava espetado em seus cabelos. Ou o perfume que eu aspirei em seu pescoço e me deixou um pouco tonto, levando-me mais uma vez a errar o passo. Isso nos fez tropeçar um no outro e quase nos esborracharmos no chão. Fiquei sem jeito, olhei-a como quem pede desculpas; você apenas sorriu e continuou firme na dança, com uma perícia bem de mulher. Foi tolice não deixar que você, dali em diante, conduzisse os passos. Por uma soberba tipicamente masculina, preferi fazer isso mal a lhe seguir. E deu no que deu.

      Foi quando retornei ao salão que percebi em seu rosto a discreta trilha de lágrimas. Você se recusava a olhar para mim. Parecia amuada, já não sorria. Estava certa, claro, pois eu era o seu par; graças a mim, deve ter tido a primeira noção do que é o abandono.

       Houve um momento em que nossos olhos se cruzaram e tive alguma esperança, mas você fez que não me viu. Parecia ter superado o que acontecera e já me haver esquecido. Sei que não esqueceu, por isso agora lhe faço este apelo.  De onde estou vejo e ouço os fogos, aspiro a mesma fumaça acre.  Com um pouco de esforço, posso até ouvir a música que nos embalava naquela noite remota... O coração bate como há tantos anos. Tenho em mim o cenário, sou o cenário. Só falta você.

domingo, 8 de maio de 2022

Lembrando Ruth

 


Este é meu primeiro Dia das Mães sem ter a quem presentear. Dei-me conta disso quando, no shopping, Denise escolhia um presente para a minha sogra e, súbito, me veio o pensamento: “O que vou comprar para mãe?”

Ela morreu em dezembro, por que então cogitar de presenteá-la? A psicanálise diria que a morte ainda não fora processada no meu inconsciente. O que nos faz sentir a perda é a repetição de situações nas quais dolorosamente percebemos uma lacuna.  E assim, de lacuna em lacuna, vai o morto se apartando da nossa existência até que se consuma a orfandade.   

Nos últimos nos, convivi com ela doente e imobilizada. Sondas, máscaras, equimoses perfuravam ou marcavam o seu corpo. Essa imagem se superpunha às que apareciam nas fotografias e embotava um pouco a lembrança dos momentos que vivi com ela.

Depois do desfecho inevitável, começo a recobrar as memórias que marcaram o seu papel de mãe.  Entre elas, a que mais me toca são as noites que ela passava me abanando por causa das crises de asma. Por horas meneava intensamente o leque na tentativa de abrandar a dispneia feroz. Isso chegava a me incomodar pelas horas de sono que lhe eram subtraídas.  Com o tempo, vendo-a avançar na idade (viveu 94 anos), percebi com alívio que essa vigília não lhe comprometera a saúde. Seria terrível cumular a asma com o remorso.   

Havia momento líricos, quando na máquina de costura ela cantava tangos ou valsas “do seu tempo”, que terminava sendo o meu. Ou quando na cozinha, preparando o seu delicioso pavê branco, cantarolava   modinhas ou fragmentos de hinos aprendidos no Colégio Cristo Rei, de Patos, onde estudou por muitos anos.

Órfã de mãe, Ruth morou na casa de um tio até se casar. A ausência materna fez com que ela se dedicasse aos filhos com redobrada aplicação. Como se quisesse intensificar neles a presença e os cuidados que faltaram em sua vida. Para isso havia a casa, que ela sempre preparou com empenho e arte de acordo com as ocasiões. Natais e São-Joões tinham a sua marca, traduzida em enfeites caprichados e comidas gostosas. Era uma esteta do lar.   

Agora que o tempo esmaece o trauma da perda, sinto que a sua imagem se recompõe com os traços vívidos do passado. Torna-se então possível visualizá-la nos momentos em que ela foi determinante e mesmo nos triviais, pois todos contam para lhe dimensionar a figura. Se não há mais a quem a presentear, resta o consolo de tê-la em nós sempre presente.

domingo, 1 de maio de 2022

A resistência do olhar



           A máscara é por excelência o símbolo da pandemia. Divide as pessoas entre as que seguem a ciência e as que, no rastro do discurso presidencial, desprezam suas orientações. Para além do papel utilitário, é um adereço capaz de traduzir as preferências estéticas dos que a usam (escrevo no presente porque a pandemia ainda não acabou).   

No futuro, a imagem mais eloquente do flagelo provocado pelo coronoavírus será a de pessoas mascaradas. O objetivo, claro, é impedir a contaminação, mas a ele se acrescentam outros efeitos, como o de despersonalizar o indivíduo escondendo-lhe parte do rosto.

O mascarado pandêmico não ri; se o faz, não deixa isso perceptível. Nele as emoções, que normalmente transparecem em todo o semblante, concentram-se no olhar. A mordaça que lhe encobre boca e nariz é uma espécie de recusa à fala, uma opção pelo silêncio opressivo que as circunstâncias lhe impõem.      

Esses detalhes não passariam despercebidos a um artista como Rodolfo Athayde, para quem a máscara é “um véu incompleto que nos protege”. Um véu que vela e ao mesmo tempo revela. Num belo volume recentemente impresso na Gráfica JB, Rodolfo vai ao “Xis” da questão. Reúne intelectuais e artistas paraibanos que, posando de máscaras, mostram na variedade de posturas, figurinos e expressões do olhar diferentes formas de encarar o desafio da contaminação.

No metalinguístico ensaio introdutório à obra, o autor faz uma espécie de resumo do significado das máscaras na sua vida. Inicialmente associadas a mistério e aventura (“A primeira foi a máscara do Zorro que estava por esses lugares”), com o tempo elas lhe penetraram o universo profissional e artístico. Serviram-lhe de tema a trabalho anteriores e acabaram se constituindo num indício do que nos limita na modernidade.  

Vivemos num mundo globalizado, mas isso não nos facilita a comunicação. Quanto maior a proximidade de uns com os outros, mesmo (ou sobretudo) virtual, maior a tendência a escondermos partes de nós. Como enfatiza Rodolfo no referido prefácio, “nem nos conhecemos mais porque são muitas as novidades do outro e o tempo é curto”.

A proposta de “Xis” é, na verdade, a de um desmascaramento. As máscaras nos vestem para nos desnudar. O título da obra remete à onomatopeia por meio da qual comumente se convocam as pessoas a sorrirem quanto vão ser fotografadas. Trata-se de uma ironia que o autor enfatiza iconicamente no desenho da capa – um “Xis” (que é também uma incógnita) confundido com uma máscara semidesfeita.   

Fotografar é cristalizar no tempo imagens que, o mais das vezes, se constituem em testemunhos de uma época. A nossa ficará marcada pela pandemia; ela a muitos tirou a vida, e a outros infligiu prejuízos materiais ou danos psicológicos. Captar nos rostos mascarados o seu efeito é uma forma não apenas de mantê-la na lembrança, mas sobretudo de surpreender na postura e no olhar dos que se mascaram diferentes reações ao trauma que ela representa.    

          Rodolfo se propõe ao registro de “uma pandemia que não resista ao nosso olhar”, seja ele de medo, perplexidade ou desesperança. Faz isso com sucesso, pois a representação artística desses sentimentos é uma forma de se libertar do estigma da doença. Além disso, como é próprio da arte, ela reafirma a capacidade humana de transcender suas limitações e ampliar o autoconhecimento. A pandemia nos legou um saber; depois dela não seremos mais os mesmos. O maior mérito do trabalho de Rodolfo é concorrer para que nos compenetremos disso.

quinta-feira, 17 de março de 2022

O principal

Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

– Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

– Cuide-se!

– Você também!!

Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

 Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

  Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa... Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

– Você não fez o principal! – interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

Visita de aniversário