- Entrevista a Luana Lacerda, do
Jornal da Paraíba -
1. Augusto dos Anjos se encaixa como simbolista, parnasiano ou
pré-modernista?
R. Augusto começou
simbolista, como um epígono de Cruz e Sousa. Chegou a produzir poemas no estilo
e no espírito do Simbolismo, em que prevalece a estética da sugestão, mas
depois viria a negar essas composições. O contato com autores como Cesário
Verde e Baudelaire, potencializado pela experiência na Faculdade de Direito do
Recife, levou-o a buscar um molde menos fluido e mais áspero para traduzir os
conflitos humanos. Sua dicção passou do tom rarefeito e místico presente nos
simbolistas a um realismo (por vezes expressionista) que já era então uma marca
da modernidade. Daí ele ser classificado nos manuais de literatura como
pré-modernista.
2. Você coordenou um grupo sobre
Literatura e Psicanálise enquanto era professor da UFPB. Você poderia falar um
pouco sobre a relação da poesia de Augusto dos Anjos com a psicanálise?
R.: Utilizei subsídios da teoria psicanalítica n´O evangelho da
podridão, a minha tese sobre Augusto dos Anjos, defendida em dezembro de 1992
na UFRJ. Como eu abordava a melancolia no poeta paraibano, procurei textos de
Freud, Lacan, Julia Kristeva e outros teóricos que trataram do tema. Chama a
atenção no Eu a culpa manifestada pelo eu lírico – uma culpa atávica, ligada a
uma primeira transgressão do homem e correspondente no cristianismo ao “pecado
original”. A culpa, segundo o criador da psicanálise, é um dos componentes
essenciais da melancolia, e estudá-la com base em subsídios psicanalíticos me
ajudou a interpretar as imagens e avaliar os demais procedimentos retóricos
presentes na obra do paraibano.
3. Considerado o paraibano do século,
qual a importância de Augusto dos Anjos para a Paraíba?
R.: A importância é
enorme, claro. A própria atribuição de “Paraibano do Século” após uma consulta
popular, na qual constava o nome de renomados políticos e de outros escritores
de peso, demonstra o reconhecimento que a Paraíba lhe tributa. Isso não teria
ocorrido se o poeta não concorresse para divulgar a imagem do estado, chamando
a atenção do Brasil para aspectos da nossa história e da nossa geografia. E,
sobretudo, despertando o interesse pelo espaço onde brotou uma voz poética tão
original.
4. Você conhece a trajetória pessoal do
poeta? Onde estudou, grandes situações que marcaram sua vida… de uma forma
geral, o que se sabe sobre ele? Há algo que o marcou ao ponto de tornar-se
poeta?
R.: Há dois grandes
livros sobre a vida dele: o de Humberto Nóbrega e o de Raimundo Magalhães
Júnior. Nessas obras é possível encontrar aspectos importantes da sua
biografia, marcada pela decadência do engenho da família e pelas primeiras
experiências no magistério da capital. Costuma-se vincular o pessimismo do
poeta a vivências dolorosas no engenho Pau d’Arco, como a morte da irmã
Francisca e da agregada Amélia, que teria despertado em Augusto uma paixão e
por isso foi punida pela mãe dele, Sinhá Mocinha. Há quem busque apontar a influência
de eventos como esses na obra, o que me parece errado e, sobretudo, pouco
produtivo do ponto de vista literário. Há no Eu um drama que vai além da
dimensão pessoal (embora, obviamente, de algum modo a reflita).
5. A Paraíba conhece a poesia de
Augusto dos Anjos? Ele é estudado nas escolas do estado?
R.: A Paraíba o ama e
admira, mas não acho que tenha um verdadeiro conhecimento da obra. O grosso dos
leitores é mais sensível a aspectos de superfície, como o vocabulário esdrúxulo
– advindo em boa parte da ciência e da
filosofia que o poeta absorveu na Faculdade de Direito do Recife – e a
musicalidade áspera, dissonante, que impressiona a uma primeira leitura ou audição
(Augusto é sobretudo um poeta para ser ouvido). Não sei se há nas escolas do
estado projetos que tratem especificamente da sua poesia.
6. Augusto dos Anjos é um poeta
mórbido?
R.: Falar em “poeta
mórbido” é vincular a morbidez ao universo poético. Nesse sentido ele é
mórbido, sim. Existe, a propósito, muita confusão entre a doença como
componente da sua poesia e como designação de um quadro pessoal. Na economia do
Eu, “a doença” designa a situação do homem como transgressor; é, como escrevo
na minha tese, uma metáfora orgânica para figurar a corrupção do ser humano
pelo pecado, a transgressão primeira, a Falta. O poema “Os Doentes” mostra isso
com clareza. Não tem sentido, por exemplo, ver o poeta como tuberculoso,
conforme já ouvi muito falar; chegam até a dar a tuberculose como causa da sua
morte, quando ele na verdade morreu de pneumonia. A “população doente do peito”
que “tossia sem remédio na (sua) alma”, conforme está em “As cismas do destino”,
era “a expectoração pútrida e crassa/ dos brônquios pulmonares de uma raça/ que
violou as leis da Natureza”. Já se apontou com muita pertinência que o eu
lírico de Augusto dos Anjos é na verdade um Nós. Em seu lamento ecoam o nosso desespero
e a nossa perplexidade em face de uma época na qual a ciência põe em xeque as
certezas religiosas e obriga o homem a erigir por conta própria uma nova grade
de valores morais.