Conviver entre quatro paredes é duro, e se
torna pior quando descuidamos da imagem – deixando, por exemplo, crescerem os
cabelos. Nesse caso o equilíbrio familiar fica literalmente por um fio (ou
melhor, por fios demais). O fechamento de barbearias e salões de beleza afeta
as relações porque constitui um golpe no narcisismo. Diminui a autoestima, e
sem ela ninguém pode se relacionar bem com os outros. É fácil acompanhar pela televisão
dicas de dança, relaxamento, exercícios físicos, enfim, todo um conjunto de
atividades que facilitam o dia a dia na quarentena. Mas como orientar as
pessoas sobre a maneira de desbastar a montanha pilosa que se acumula em seu crânio?
Além de feia, ela ainda oferece o risco de dar guarida aos piolhos. E que dizer
das mulheres, privadas de frequentar os salões de beleza? Tirem-lhes o cinema,
o restaurante, os passeios, mas não as impeçam de adentrar essas pequenas
catedrais da vaidade. Toda mulher tem a beleza como primeira religião, e privá-las
dos salões redunda em neurose e sentimento de culpa. E quando se instala esse
pathos, nós homens é que pagamos pato.
terça-feira, 28 de abril de 2020
sexta-feira, 24 de abril de 2020
Notas sobre a pandemia (18)
O
ministro que criticou a “veiculação maciça” de fatos negativos
sobre o coronavírus não deixa de ter razão. Nossa imprensa não tem olhos para
as coisas belas que acontecem em volta. Não vê, por exemplo, que o ar limpo devido
à escassez de carros nas ruas vem tornado os dias mais claros. Os pássaros
cantam com mais alegria, o que se percebe pela inusitada agudeza dos trinados. A
intensidade cromática das flores, que dançam na brisa, dá aos jardins o aspecto
de uma aquarela renascentista. Em vez de noticiar fatos como esses, a mídia mostra
enfermarias lotadas em que nem todos os pacientes têm a sorte de encontrar respiradores
e agonizam com falta de ar. Ou se concentra na imagem de valas em torno das
quais os coveiros, apoiados em seus instrumentos, aguardam para iniciar o
trabalho (e nunca esperam demais). Vou acabar desligando a TV e me mudando pra
Pasárgada, pois lá sou amigo do rei (isso se algum jornalista desmancha-prazeres
não vier me informar que Sua Majestade também está com a Covid-19!).
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Rumo ao "hepta"
Hoje faço 69 (sem duplo sentido,
por favor!). Não posso dizer que tenho a sensação do dever cumprido, pois, aja
como agir, sempre me sentirei em débito comigo e com os outros (meu analista
não conseguiu resolver isso). O delicado nessa idade é a gente saber que está
se despedindo da faixa do “sexa” e entrando na do “hepta”. “Heptagenário” não
deve soar bem em nenhuma língua. Ainda não sei como vou reagir daqui a um
ano.
Parece natural, a esta altura, ter a sensação
de que se “viu tudo”. Que nada! A vida sempre nos reserva surpresas. Eu nunca
imaginei, por exemplo, que seria contemporâneo de uma pandemia. Essa é, por
sinal, a maior razão por que me recusei a comemorar o aniversário; não tem
sentido apagar as velinhas quando o Governo parece ter a intenção de “apagar” os
velhinhos. Fica discutindo questões político-ideológicas num momento em que o País
já se preocupa com a carência, não de leitos, mas de covas.
Cheguei a conviver com a gripe asiática
nos anos 1950, mas nem de longe isso provocou em mim a impressão, ou o abalo,
que o coronavírus vem provocado. Eu era criança e não fazia parte do chamado
grupo de risco. Hoje o noticiário me lembra o tempo todo que, se contrair o
vírus, serei um candidato a morrer. À noite, em soturnos devaneios, suspiro
pela vacina ou ao menos pela cloroquina (que, agora me dizem, pode ser pior do
que a doença).
Nada de nostalgia numa data
como esta. Tento viver com resignação e encarar o passar do tempo sem desencanto.
Não tenho ilusões metafísicas nem acho que se precise delas para, digamos, dar
um sentido à vida. Há várias formas de fazer isso considerando a nossa
realidade natural. Da natureza viemos e a ela vamos retornar. Cada vez mais me
convenço de que o grande desafio, a conquista maior, o mérito que a todos se
superpõe – é amar os outros. Para isso faz-se necessário vencer o egoísmo e a
avidez pelo dinheiro, que tem matado mais do que qualquer agente infeccioso.
A vida tem coisas boas, como a
família, o trabalho e o bolo de ameixa. A família é um ancoradouro; sem ela,
que nos dá afeto e nos atura, ficaria mais difícil suportar a dureza do mundo.
O trabalho é o que nos confere identidade; a gente se reconhece no que faz. E o
bolo de ameixa, bem, entrou aqui por uma associação involuntária (decerto pela
memória inconsciente de um bolo que comi em Paris. Pardonnez-moi! É que ele lembrava
o pavê branco de minha mãe.)
Ao avançar nos anos, recuamos
nos enganos. Chama-se a isso lucidez. É o mínimo que um sexagenário pode
almejar para sentir que o percurso tem valido a pena. Mas a lucidez, é bom que
se diga, não nos coloca em nenhum patamar superior. Apenas nos ajuda a perceber
nossos limites, que são tantos.
Goethe, no leito de morte, chegou a clamar: “Luz!
Mais luz!”. Era um gênio, estava no término da vida, e ainda parecia vagar numa
penumbrosa incompreensão dos enigmas do mundo. Que dizer de nós, pessoas
comuns? Embarco na nova idade mais lúcido, porém não necessariamente mais
sábio. E sobretudo grato ao acaso (o disfarce de Deus) e às pessoas que me
fizeram chegar até aqui.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Notas sobre a pandemia (17)
A nova rotina oferece-nos a possibilidade de
resgatar antigos prazeres. Por exemplo, passear de carro. Ninguém faz mais isso,
pois o automóvel hoje é basicamente um instrumento utilitário (além de um
agente neurotizante). Mas tenho gratas lembranças dessa prática. Em Campina, onde
a família não tinha carro, meu Tio Emídio sempre me pegava à tardinha para um
passeio. Reencontro a emoção que isso provocava ao seguir com a mulher e uma de
minhas filhas pela orla do Cabo Branco. É o máximo que nos concedemos em termos
de fuga ao isolamento. De repente, lá está o mar, que eu não via há anos! Passava
por ele, olhava-o com distração e seguia rumo
às tarefas diárias. Agora, enquanto o carro desliza com os vidros semiabertos,
contemplo-o num vagar poético e meditativo. Que beleza esse azul-esverdeado sobre
o qual cintilam breves raios de sol! Alguém propõe que desçamos para dar uma
respirada e, por que não?, fazer uma selfie. Não corri pela praia nem tomei banho de mar,
mas poucas vezes o meu encontro com ele foi tão reparador.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
Notas sobre a pandemia (16)
Os “sonhos
pandêmicos” traduzem a maneira como o nosso inconsciente processa os resíduos
diurnos recheados de notícias sobre morte, isolamento social, internações em
hospitais lotados. Tive um deles ontem. Sonhei que estava num quarto cheio de
camas (pareciam beliches) sobre as quais estavam deitados tigres. Minha vontade
era correr dali, pois sabia que os felinos a qualquer momento iam atacar. Meus
flertes com a Psicanálise me encorajam a tentar interpretar esse sonho. Os conteúdos
oníricos, como aprendemos com Freud, submetem-se a dois mecanismos básicos: a condensação
e o deslocamento. A condensação explica a referência aos tigres; recentemente falei
aqui de um deles (a fêmea Nádia), que fora infectado pelo coronavírus. Os beliches
no quarto são imagens deslocadas das enfermarias onde os doentes padecem com
falta de ar. E por que esses doentes apareciam sob a forma de tigres? Isso
novamente se explica pela condensação: no processo infeccioso os pacientes são
também transmissores, ou seja, constituem uma agressiva ameaça para os outros.
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Cada ave no seu canto
No terraço de uma casa de classe média, vivem um
passarinho e um papagaio. Ao saber que haveria um festival de músicas compostas
só por aves, o papagaio se dirige ao passarinho (um canário) e lhe propõe:
– Que
tal a gente participar com uma canção? Você faz a melodia, e eu a letra
O
passarinho topa. Os dois compõem a música e a inscrevem no festival. O
resultado não poderia ter sido pior; a dupla foi desclassificada logo na
primeira fase. Explicação dos jurados: a melodia até que tinha originalidade,
mas a letra era toda plágio.
****
Aprisionado
na gaiola, um passarinho passava o tempo voando de um lado para outro. Cantava,
cantava muito, pois era por meio do canto que ele extravasava seu anseio de
liberdade. Vendo-lhe o desespero, um papagaio que vivia num poleiro próximo lhe
disse:
– Tolo. Você quer sair dessa gaiola, mas não para
de cantar. Não vê que é justamente o canto que faz os seus donos manterem
você preso? Deixe de cantar, ou cante mal, que você perderá a serventia e eles vão
soltá-lo.
O passarinho (um canário) resolveu seguir o
conselho. A partir daí ficou mudo ou no
máximo emitia uns trinados roucos, bem diferentes dos maviosos sons de antes.
Os
donos logo notaram isso. A ave não cantava mais... A família então se reuniu
para decidir o que fazer com ela. Alguém propôs que a matassem e a servissem como
tira-gosto na cerveja do sábado. A ideia foi aceita, e terminaram matando o
passarinho.
Moral
da história: “Se você nasceu com um dom, jamais renuncie a ele. Essa renúncia pode
fazê-lo morrer mais cedo.”Notas sobre a pandemia (15)
A rotina da quarentena exige um maior
envolvimento nas atividades culinárias por parte dos que, como eu, exercem-nas
mediocremente. Estou longe de ser aquele tipo de sujeito que não sabe fritar um
ovo, porém confesso que às vezes deixo queimar a omelete. Minha mulher tem
trabalhado mais, concordo, no entanto já tentei lhe mostrar que a sua atividade
tem uma nobreza que a minha está longe de ter. Cozinhar é uma arte; lavar a
louça, não. Fazer a comida envolve a escolha dos ingredientes, a dosagem dos
temperos, a graduação da temperatura do forno para obter o ponto ideal de
cozimento. É um trabalho que motiva seu autor e lhe desperta a criatividade. Já
lavar os pratos e talheres constitui literalmente a parte “suja”. Elogia-se
facilmente um prato bem-feito, mas poucos (ai de mim!) valorizam uma louça
lavada com esforço e aplicação. A tendência dos outros é demonstrar a
insuficiência do trabalho, apontando a tisna renitente, a borra disfarçada, a
mancha de gordura que ficou...
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